21 dezembro 2008

feliz natal LTDA.


Consumo de eletricidade,
de gás, de gasolina, de leite
de carnes, de gorduras
bens de consumo.

consumos privados, públicos
improdutivos, reprodutivos
consumo de massa
função do consumo: elasticidade.

- No Bar, é sempre eu quem paga a consumação!
UM CLIENTE PARTIU SEM PAGAR A CONSUMAÇÃO!

consumação de um crime
consumação de um casamento
ATÉ A CONSUMAÇÃO DOS SÉCULOS!

consumo de amor
sobreconsumo do amor
amor consumado
amor nato.

13 dezembro 2008

inquirindo és belo

Agora descobri. Agora descobri aquele Livro. Abrindo e fechando. Abrindo, Ele se fechou para mim. Fechando, Ele se abriu só para mim. Duro como era. Flexível era agora. Não tanto confortável. Porque com conforto eu o fecho! Tenho ciúmes. Pode Ele ficar desejoso demais?! Em mim, Ele é desejo. Em ti, será duro instante.
Deixa um pouco de sonho. Deixa este sonho que eu sei acordado acenar o seu gosto. Pois já sei do desgosto. Não se inquiete, pois já imagino que sei, e é por isto que aindo vivo. Sou quem cobre o instante. De dúvida. De Solidão. Amor: Livros: Poesia.
Amor, vamos viver o instante que é poesia .
Sozinho, no beco, poesia é vadiagem encantada.
Mas é Belo mesmo assim.

02 novembro 2008

GIRACÃO

Antes do ão, um Cão não se acaba.
Segurava o Cão
e seguia pela calçada retilínea
seus passos descompassados
tentavam
alcançar as patas frenéticas e vivas
do Cão seguro de si.

o Cão se ergue e se senta
guardando o horizonte do oceano
seu doninho alisa os pelos do animal
que se ondulam a contrapelo
e se quebram próximo ao pescoço
às rochas do mar.

o movimento giratório do Cão
o redemoinho do quebra-mar
os dedos do doninho
rodando a areia
a areia rolando pela areia:

respira o Cão
mergulhado nas ondas
fecha os olhos o homem
desbotado pelo fundo do mar.

 

19 outubro 2008

MODUS OPERANDI


- Tosse! Tosse!
- Agora diz:
p-o-e-s-i-a
a bocas afogadas.

04 outubro 2008

Chã Poesia

É mágica a poesia não-vivida, ou seja, a poesia que é escrita mas que não tem necessariamente a ver com a experiência imediata do poeta. Não que a poesia que reflete a vivência de um poeta seja necessariamente a plasmada em poesia, pois a poesia passa pela película viva dos pensamentos e da linguagem. A maioria da poesia é vivida internamente a partir de estalos da percepção, de projeções no sentido externo-interno-externo. A poesia não-vivida, suponhamos que a tenhamos, é o espírito em estado flutuante mas de vez em quando submergindo e, perdida a respiração, vindo à tona com as palavras da parte mais profunda da inconsciência.
Na verdade, a vivida - suponhamos que seja mais divertido escrever poesia do que se pensa e que poderíamos escolher uma poesia vivida e não-vivida - também é assim, entretanto, sua espacialidade experimentada faz com que os objetos poéticos sussurrem subliminarmente a poesia às asas em vôo naquele momento. Estas asas em vôo são os ouvidos do poeta face à construção poética.
Poderíamos até discutir se asas de poetas não estão cotidianamente em vôo (este circlunflexo irá cair com a nova revisão ortográfica, mas eu quero que ele fique porque este circunflexo é a minha única asa ). Certamente os poetas dirão que não. Vão dizer que precisam voltar à terra para escrever a poesia. Pois se eles possuem as asas, nem sempre os outros as possuem, então, é preciso que os poetas voltem para alguém lê-los. Mas, se olharmos atentamente, é notável que estão na maioria das vezes ausentes do chão. Conscientes do mundo mas ausentes do chão.
Ora ora, não poderia ser diferente.

21 setembro 2008

Passagem

Lembro-me agora do momento em que voltava para casa, já no começo da manhã do primeiro dia de 3026.
O ônibus que nos levou de volta estava muito cheio. Estávamos extremamente cansados. Ficamos a madrugada inteira caminhando ao longo da praia, após a aurora boreal da meia-noite.
Mas o que queria buscar é a lembrança dos corpos cansados, os quais pude observar nos longos minutos que passei com os meus amigos no ônibus, tentando atravessar uma das principais ruas daquele Deserto, pleno que estava às 5 da manhã, parecendo um meio-dia ensolarado.
Não era um meio-dia ensolarado, pois o sol ainda nascia fresco. Na linha reta em que seguia o ônibus, costeávamos algumas ruas perpendicularmente, que apontavam para o mar, e, como aquelas frestas de luz que incidem às cegas em nossos olhares numa manhã primordial, observávamos o nascer do sol por etapas. A cada rua que cortávamos feito a lâmina na pele, o sol assumia uma vermelhidão infinita, nos conduzindo a uma atmosfera de origem do mundo.
Parece-me, no entanto, que poucos no ônibus tiveram a oportunidade de contemplar esse primeiro quero-quero da manhã. Eu mesmo estava de pé e, por vezes, até meu cansaço colocava em trevas todas aquelas passagens.
Alguns já dormiam quando estávamos entrando pelo ônibus adentro. Uma menina recostava sua cabeça no ombro dum rapaz com os olhos meio vermelhos. Parecia refletir um eclipse solar. Outro rapaz aproveitava as costas do banco à sua frente, deixando cair-se sobre os seus braços cruzados. Muitos estavam em pé, sustentados porém envergados por braços cansados. Alguns estavam com braços nus, porque suas mangas desciam com o chacoalhar do ônibus.
Já tínhamos nos tornado uma comunidade. Mas, ao contrário duma comunidade que poderia se formar no meio daquele Deserto dentro do ônibus ao meio-dia, éramos uma comunidade silenciosa. No silêncio, atravessamos uma baía, um lago, um areal, uma planície, com algumas montanhas sonolentas encimando os nossos olhares. No silêncio, o vento fresco da manhã nos convidava para um novo princípio. As árvores passavam ao longo do final do caminho, com sua ossatura protegida pelo antivazio das folhas. E, a partir daqui, fomos nos dispersando. Cada um descia em direção a uma Vida. Cada um levava um mundo. Como sempre fazíamos na primeira manhã depois da aurora boreal.

14 setembro 2008

The Dog's show

Certo dia, um menino avistou, quando atravessava uma grande avenida, um cão com nulidade de espírito e corpo miserável. O cão atravessou o caminho do menino. Mas o menino fingiu não olhar o cão. Pois o cão poderia pensar que estava sendo amado e o menino não pretendia naquele momento amar alguém. Então, o menino olhou para o céu e do céu para o sinal que estava na iminência de abrir. O sinal abriu. O menino já atravessara a grande avenida. O cão atravessara também, no entanto, na borda da calçada, se coçou, parou e se deitou por ali mesmo. O menino seguiu e não olhou para trás. O cão se estendeu e encostou o focinho no asfalto para se esquentar. Ele amava esquenter o focinho naquela quentura de carros vibrantes e vivos. Ele adorava amar o desamável.

Imago

na pequena rua noturna
com luz úmida e melancólica
os passos se arrastam
sobre pequenas gotas
que prenunciam o despertar
duma aurora chuvosa
e breve.

A lagarta se arrastava pelo beco úmido. As duas pequeninas crianças se chegaram. Com seus desassossegados dedos, começaram a fazer cosquinhas na lagarta verde com listas ondulantes e amarelas. A criaturinha se enrolava, unindo os seus dois pólos. Parecia se divertir. Parecia ser. As crianças gargalhavam com o mirabolante movimento do animal. Jogavam-se ao lado dela e mexiam seus braços também, a fim de imitá-la na insistente diversão. Eram pré-homens. As crianças pareciam entender a lagarta. Era pré-borboleta. Completava-se o jogo com o beco, o qual era outrossim pré-rua ou enigmático microcosmo onde se dava o divertimento entre duas crianças e um pequeno pedaço de fita verde com listas ondulantes e amarelas: pré-mundo do existir.

07 setembro 2008

Circular

A rua ainda estava lúcida, mas os carros que a seguiam não. Um desses, muito nobre, parou próximo a uma árvore, onde a luz pública, da madrugada e pálida, não penetrava. Os faróis vermelhos, com uma parada suave, perscrutavam o metro à frente do carro. As folhas secas se destacavam dos galhos e caíam com o vento, que as fazia circular em meio ao vazio da rua.

A porta do automóvel se abriu, sem escancarar. Dizia o homem ao lado: 'Saia!' Um primeiro passo e um brilho sem igual semiluziu o tronco da árvore. Saía com um vestido de lantejoulas prata. Visível era agora sua meia, trançada como uma teia. Uma aranha profissional identificava ali o labor cuidadoso de um percurso... Tocava o chão com o salto-agulha. O toc-toc de sua caminhada era o sumiço do carro que ali se avizinhava. As sombras desistiram de qualquer aproximação.

Na rua transversal, outro automóvel vinha. Nobre objeto de quatro rodas que assim rodava sem direção. O vestido brilhou contra o vidro e o vidro sujeitou o olhar. Já tinha dado dez passos desde a saída do outro nobre. O outro carro parou. Aproximou-se da outra porta, descendo levemente sua meia aracnídea. Ainda se via sua coxa recém-depilada. Aproveitara algum banheiro em meio a madrugada para fazer a toilette. O homem, suado, deixou que escorregassem os óculos de seu nariz. Disse apenas em seguida: 'Entre!' Suas pernas envergaram. O vestido se enlameou ao banco traseiro. O nobre seguiu. O ar tilintou no ar. E sorriu.

31 agosto 2008

Mobile

Um bebê está no colo das ondas. Ele sonda o tempo. Ele sente náuseas. A espuma bate em suas costas. Ele sorri e cresce de asas. Fecha os olhos e decresce. Mas foi ás na vida.

30 agosto 2008

Silêncio Flutuante


Há uma possibilidade de silêncio no mundo, isto é, o mundo parece verdadeiro apenas na quietude do ser. Muitas vezes, não se tem a possibilidade de falar, porque a fala já é recebida como desentendimento. Como uma face verbal negra e sem valor. No silêncio da literatura, talvez possamos gritar com mais verdade para o mundo. Velando nossas verdades nas palavras. Deixando ecos a descobrir em cada palavra que notamos a partir de nossa visão de mundo. Quem quiser a procure e talvez ninguém nunca a procure, porque as palavras talvez só sejam para si mesmas. Desinteressadas do mundo, mesmo assim se põem no mundo. Na leve quietude da iminência do nada. As palavras já foram para quem escreveu e é isto que importa. Ou não importa, e é por isto que lemos.
Estendemos nossos espíritos e deitamos a fim de vislumbrar um horizonte somente na grafia das palavras. E sozinho, no silêncio, por mais doloroso e sem alteridade que seja essa mudez existencial, podemos nos abrir e ser livres. Parece que somente aqui podemos ser livres. Levarmo-nos para onde queremos. Invadir o que queremos. Sugar do mundo o que bem pretendemos.
As palavras, apesar de serem construções abstratas de uma visão de mundo e de uma inteligência de mundo, que jamais serão as mesmas, alteram um peso de nossas existências. Saindo e nascendo para o mundo, as palavras parecem jogar para fora partículas iminentes de explodirem no interior dos corpos. Porém, essas partículas podem ficar nos corpos uma vida inteira, porque, impossibilitados pela pobreza da linguagem, e chamo aqui a linguagem escrita, os seres não conseguem expressar os seus sentimentos absolutos e, desta forma, silenciam seu vasto e único espírito vivido.
O que quero dizer com isto é que alguns emudecem porque não conseguem falar, outros emudecem porque não podem falar. É nesse duplo silêncio que se dá a possibilidade cada vez mais constante do silêncio. Da quietude. Do nascer de um humano silencioso, posto que desatado da possibilidade de sua liberdade de falar. De pré-sentir algum mundo e, com prazer, inter-relacionar um microcosmo interior e autêntico porque uno.
O silêncio: aqui se esconde a beleza da Literatura. Mas o silêncio também é a impossibilidade de ser livre.


17 agosto 2008

Endofagia

Foi viajar e os livros estavam adormecidos naquele período. Tratara de colocá-los com ternura em caixas coloridas, nas quais, nos próximos meses, repousariam como bibelôs num canto da sala.
Sua mãe não lia. Seu pai não lia. Seu irmão não lia. As vizinhas de sua mãe não liam. Não teria sentido deixá-los expostos por todo este tempo. E, além do mais, Eles, os livros, não queriam ir nem para uma biblioteca, nem para casa de amigos. Não suportavam a iminência do fim da constante ternura dia após dia de seu dono. Dos toques de seu dono. Da pureza infinita do toque de seus dedos delicadamente roçando uma passagem relida com ardor. Os objetos respiravam profundamente. Sabiam que não eram os fins.
Meses se passaram. Sua mãe já expunha as caixas na sala para o serviço das visitas. Algumas já viravam encosto para um lustre. Outras haviam sido colocadas de cabeça para baixo em outros cantos. A matriarca tinha esquecido que os livros tinham sido colocados cuidadosamente de capa para cima. Respiravam de capa para cima.
Numa noite úmida e quente, sua mãe acordou exasperada pelo calor. De pés descalços, sentiu um líquido bater na sola de seus pés, vindo das caixas coloridas. Agachou, jogou no espaço quatro dedos e os raspou no chão, a fim de tatear o material residual que se disseminava. Jogou os olhos para as caixas: estavam úmidas. A mãe naturalmente olhou para cima: possivelmente era uma infiltração no apartamento. Jogou então as caixas para outro canto. Mas estava seco o chão. Resolveu abri-las.
Um minuto antes tinha esquecido o que tinha ali. As caixas já eram mistérios para o seu olhar. Afinal de contas, já havia passado dois anos. Mergulhou assim seus braços largos e suas mãos, que desciam aninhadas com a ajuda de seus dedos. Percebeu que os livros, em pares, estavam colados uns aos outros. Em seguida, quando tentou separá-los, cada casal de livros se rasgavam também uns nos outros. Suas letras impressas escorriam enegrecidas e se manchavam mutuamente. Os casais de livros pareciam tão aderentes uns aos outros que suas folhas, intricadas num bloco só, pareciam um material cardíaco com íntimas veias que, aparentemente emboladas e sem orientação, sabem com precisão para onde seguem, como seguem e que nutrientes levam consigo mesmas. E a mãe percebeu que os livros se amavam uns aos outros. E percebeu que os livros liam uns aos outros. E, na iminência de um toque estranho, suicidavam-se uns em frente aos outros.

09 agosto 2008

Mimus poly-glottus

'Você precisa me dar uma prova de amor', dizia ele. Ela não entendia. O normal é que o simbolismo das provas de amor viesse dele.
'Nos próximos dias vou fazer-lhe então', disse ela. Ele, desconfiado, achava que o contrário podia ser feito. Uma prova irônica de amor, talvez. Um prova de um meio-amor.
Certo dia, ele descascava uma laranja. Mania tinha de descascá-la calmamente. Deixava-a desesperada quando resolvia presenciar o ato. Nem na cama ele a despia com tanto detalhe.
Pois bem, a faquinha em suas mãos e lá ia ele para cozinha, retirando a casca geometricamente, sentado diante da mesa de tampo de mármore. A espiral da casca se formando. Ela, sem querer, sentada no outro lado da mesa, como não querendo nada.
Passaram os minutos. A laranja estava descascada. Não, faltavam os gomos. Os gomos... Retirava-os um por um. Como se estivesse retirando cada tijolinho vermelho dessas casas de tijolos rubros e antigos. Lado a lado, permaneciam eles até o ritual antropofágico final.
O ar ficou tomado pelo cheiro cítrico. Ela via algo de sensual, desta vez, naqueles gomos. Suas bochechas, repentinamente vermelhas, fizeram-na levemente descer sua cabeça sobre o tampo da mesa. Com um suspiro, sentia o gelado do mármore tocando a pele da face. Como um gozo numa cama. E ele continuava com os gomos, agora os chupando, um por um, separando os pequeninos caroços num lado periférico da mesa. Um por um, os caroços iam saindo de sua boca. Os lábios meio que se fechando no sair e deixando nas extremidades das criaturas pequenas a saliva de sua língua.
Ela, como não querendo nada, levantou-se da cadeira. Vestia um top vermelho vagabundo e um shortinho jeans de qualidade. Foi assim que, em seguida, passou para o lado dele e recolheu os caroços. Na sua frente, abriu seu short instantaneamente. Ele nada entendia, pois. Embriagada, ela pegou os caroços e os depositou dentro de sua calcinha laranja.

03 agosto 2008

Pathos

Em levante a primeira flor azul
no campo sem dor
as águas-marinhas invadem o nosso pensamento
amor escorre pelos nossos olhos
assustados mas brilhantes

no primeiro anoitecer a brisa
ama nossas peles
lambe nossas faces
molha no corpo: flores,
que vermelha, azul, negra
refletem a trilogia da paixão:
amor melancolia dor

invade a esfera celeste
os jardins floridos em chamas
faz das águas-marinhas
as flores de nossas tramas.

To dentrum


A expansão interna é alucinação na sociedade atual. O ser interno é pressionado por questões externas a todo momento. A atitude expansiva é tida como inércia do ser, no entanto, é na verdade afirmação do homem como eterna substância que não se contém com espaços vazios existenciais. É difícil lidar com a questão: o que é a expansão interna? O que é a expansão interna para um, pode não ser para outro. O que é profundo para um ser, é ausente de pressão interna para um outro. Mas, por exemplo, se escrevo e escrevendo quero passar uma percepção profunda de mundo ou o que acho profundo no mundo, então temos uma expansão interna, pois um ser contrai uma percepção externa para mergulhá-la em suas indagações internas, a fim de expandir para além das suposições lógicas do mundo. As suposições lógicas do mundo são as suposições esclarecidas por uma maioria humana.
Não podemos dizer que uma longa expansão interna do ser pode levá-lo, futuramente e finalmente, a uma contração plena de personalidade única. Como sujeito exposto à adversidade constante do mundo, sobretudo o mundo pós-moderno, o ser está sempre em expansão. Na realidade, podemos dizer que há sim uma contração dentro da expansão, pois aquela é uma atitude do ser para refutar uma expansão mal feita, ou seja, a expansão correlacionada com outro ser. É preciso compreender que a expansão interna é, infelizmente, uma ação solitária. Dois seres são visões de mundo diferentes e, ao tentarem se expandir juntos, provocam uma contração em uma das capacidades expansivas. A troca de dois seres só se dá externamente. Esta é seguida, quando da vontade do ser, por uma expansão interna, a qual se dá, portanto, com o tempo, numa atitude solitária e, conseqüentemente, mais próxima da condição anímica-individual do homem.



26 julho 2008

Retroato


Nossos dias passaram e não os documentamos em nossos próprios espíritos. As memórias foram parciais quando submetidas às decisões do tempo. Decidiu-se pelo advento de um tempo futuro, com resquícios valorativos de um passado cada vez mais distante. Imaginamos, então, parcialmente o passado que, com fantásticas atitudes inexistentes, nos reforçam para um futuro com fim.
Os porta-retratos da sala são levemente antigos. Legam aos nossos olhos cotidianos a persistência de um passado quebrado e disforme. Já não mais temos aqueles sorrisos, nem aquela união, muito menos a consistência daquela alegria. Somos para cada lado de nós atualmente, inclusive quando firmamos os olhares presentificados naquelas faces enquadradas nos porta-retratos, cujas molduras estão carcomidas pela ausência da afirmação alegre de vivências atuais alegres. As memórias parecem se revolver formalmente alegres somente com a soberania de um grau presente de alegria ao menos interna. Não o temos. Não documentamos também nossos graus de alegria interna. Contraímos, portanto, a existência interna.
Nossos esqueletos seguram maçãs podres e nossos porta-retratos chafurdam a terra para o enterro de nossas memórias. As janelas se fecham. As flores murcham. A atmosfera e o ambiente congelam-se no período glacial interno de nossa casa. As fotografias são tiradas. Enegrecidas de cinzas são expostas nos porta-retratos. Já estão documentados os nossos resquícios.

19 julho 2008

Ciranda

Uma pequena praia que se perdia nos confins do mundo. Os confins do mundo para o nosso mundo. Passavam férias. As crianças na areia. Um casal, mais uma menina desconfiada com o seu mundo e um pequeno menino satisfeito, etérea visão externa àquela afirmação inicial do homem, com sua lúdica carne inconsciente do mundo. Os pais levemente bonachões. Envergados nas suas cadeiras verdes-profundo-mar. Esquecidos nos confins do mundo para o nosso mundo. Esquecidos daquela praia, sonhando com suas próximas vagas futuras.
Umas ondas. Sim, umas ondas gostosas se aproximando. Uma suave brisa. Uma brisa suave mas forte na proximidade da praia. A visão da menina se contorce para o horizonte e retorna para a areia. O menino ludicamente vai ao encontro das ondas. As ondas são as ondas. Vêm na altura, balançam, quebram exatamente nos dedos do menino, retornam para o recomeço. Conhece a natureza aquele pequeno menino. Desconfia já da natureza a menina. Cinicamente desprezam a natureza, os bonachões.
As ondas correm fortes. Chegam aos dedos do menino. É um brinquedo elementar e pequeno das ondas. Seus dedos desaparecem para o fundo. A menina corre. Os pais já estão no sono e continuam nele para sempre. Ela chora. As vagas invadem toda a costa. Ela mergulha. A menina mergulha as suas ilusões. Remexe as suas bolhas de ar quase findando para o regozijo das vagas. O mar é repetição eterna. Eterna certeza até saber que sua certeza é a linha dos pés do homem.

Às margens das sombras

No primeiro grão
uma sombra
nos sobressaltos dos grãos
várias sombras
que se remetem ao seu rosto
às suas mãos
ao afago da dobra de todos os seus dedos.

Ao primeiro grão caído uma esfera do seu ser caído.

No primeiro bater do vento
todos os grãos se vão
e as nossas mãos
e as nossas sombras
e todas as vagas que nos trouxeram o despertar.

12 julho 2008

Gelatina: modo de usar

a gelatina de amora
comportava-se no potinho vinho

as lâmpadas do quarto
incendiavam a cor vermelha-vítria
da amora guardada
pelas mãos amaciadas

com a colher longa e metálica
suspendia os glóbulos gelatinosos
até que tocassem a ponta dos lábios
assim tornados gélidos
pela ponta coligida

a gelatina entrava
a língua se remexia
os olhos fechavam extasiados
o suspiro era uma delícia.

Tessitura

no silêncio
só o corpo
como forma dentro do mundo

algo reinventa o interior

a qualquer momento a luz
surge na fissura dos olhos
e se abre
uma grande galáxia
abre-se.

06 julho 2008

Fino pássaro


na madrugada
na janela
uma vela
rompe uma chama no firmamento
- é o pássaro de fogo -
sobrevoa a pureza da vela
arde-a.

tempos começam naquela madrugada:
o fio destemido
desfaz-se,
a visita do pássaro é constante
a vela apaga-se ao dia
o fogo reconstrói sua chama
à noite.

ao término da cera
quando esta se transforma
numa substância orgânica
i-m-p-u-r-a
o pássaro de fogo põe-se ao seu lado
(mas que lado, meu deus?)

já cansado de arder o tempo 
sem velar
engole as suas entranhas em chamas
abriga-se em suas plumagens chamuscadas
petrifica-se
ensaiando-se em negro
digno de ter consumido
uma fina existência.

02 julho 2008

Terremoto circense

I
circo sobre-humano:
é o centro da Terra
intramundo despedaçado
sobre o magma original

II
arranha-céus tremem pendulares
rangendo um novo Tempo

III
novas ondas do âmago
em zênite para enovelar os homens

IV
os hominídeos:
fumam o ar
e devolvem um sopro mundano
suposto maior que a poeira
e as vagas universais

V
circo sobre-humano:
a incerteza do Ser no mundo
espiral carrossel vital
cavalinhos rosáceos
edulcorados pela antivida
à espera da esperança
do centro da Terra Devaneada.

29 junho 2008

Pipando

A J. , ser-pater
Ao pequeno G. , ser-quark

D'uma bolsa-pipa
pipocam, explodem pipas

coloridas, tangíveis

comestíveis, vitais


abastecem o céu da laje
de ecos de cor
de movimentos, de semblantes, de verdor

dupla pipa: são pai e filho

pipando no céu tal campo de lírio


mas nada é mais eterno:

são os olhos rodeantes do filho ao pai terno

no véu do céu

olhos esferas magnéticas

rodeando o anelo paterno


uma linha sustenta as pipas

que enovelam as nuvens,

carregam fitas


a linha firme (mas como afeto de vento)

riscando como um raio levante

o caminho das pipas: semblantes


já é noite - desçam - diz Ela com ar

de mãe entre os dedos afagando a linha

nina de seu ventre luz à Via Láctea

para sempre alumiar

o crepúsculo das pipas
.

Sonda

temos da vida
o que nunca queremos
e temos o corpo
que a alma envelhece a cada dia
que a si mesmo se deduz como expansão grandiosa
e única do universo

temos da vida
o que jamais teríamos
se a vida fosse uma outra vida
mais consciente do corpo que recolhe para o insondável.

28 junho 2008

Rosavento


Percorrendo a areia - era areia pois sentia meu pé arenoso -, sustentava uma rosa. Não a levantava com todo o vigor. Tórrido era o tempo e, engasgada por entre meus dedos, levemente retorcida em direção ao chão, ela ficava. Ou não ficava, pois eu a forçava ficar. Eu diria: ela me acompanhava em direção ao mar. Parei. Era preciso, as ondas forçavam os meus pés. Foi preciso, a rosa iria ser despedaçada ali. Ela encheria minhas mãos de pétalas avermelhadas. As ondas já forçavam novamente meus pés.
Tempo era de jogar as pétalas rubras ao vento. Bem acima de meus olhos. Bem acima do miolo da rosa esmigalhada pela palma de minhas mãos.
As pequeninas vermelhas - prenderia minha respiração se fossem azuis - caíram no espelho d'água. Pétalas, como sois vulgares, afundam e simplesmente se vão? Convém verter uma lágrima em sua memória.
Retomo uma gota da lágrima, pois as pétalas emergem no instante seguinte. Agora estão transfiguradas em pássaros vermelhos, cujas asas cintilantes espremem-se em rota para o horizonte.
Tem-se o corpo fraco neste instante. Era o domínio de uma flor que se esvai. Deixo meu corpo em rubor. Enrolado, pressinto o tórrido horizonte em trevas. Rubras, as nuvens perscrutam meus olhos. Nem sinto, porém, a luz que me cega.

Tempo-síntese


dorme
até o segundo seguinte do próximo dia

dorme
e sem sonhar
na escuridão do sono
não sintas o espaço e o tempo

esquece lembranças
e os insuportáveis desvios do SER

descansa da vida
não estando sem vida
e não esperes o próximo segundo
onde há de acordar para um novo dia
e permitir a contagem do tempo
círculo repetitivo da motricidade do pensamento

por isso dorme
enquanto há tempo-síntese
da inércia de todo homem.