17 fevereiro 2011

o que me vem como vento



Pelo menos uma vez na vida, cada pessoa se sentirá estranha consigo mesma e frente às outras. Mesmo os homens mecânicos, homens sem vida, homens utilitários, homens sem serem homens, homens mais animais do que humanos, mesmo estes se sentirão estranhos uma vez na vida.
E então sentirão o abalo. Tomarão consciência com susto ou sem susto. Talvez poderão seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Mas foram abalados.
Uma bala é guardada ao lado de seus corações esperando pelo último abalo. Pelo último estranhamento, a misericórdia de um estranhamento que não se concretizou ao longo de suas vidas.
De certo, nada pode acontecer: são homens mecânicos. Mas quem saberá, quem saberá se nem ao menos podemos tocá-los com nossas emoções nem mergulhar as nossas mãos no espaço vazio que os move mecanicamente?
Ora, pobres homens, pois nem o vento se move assim.

07 fevereiro 2011

Flamas




livros esquiam sobre a baía

esquizos saltam da ponte
ondas quebram surfistas
montanhas geram derrames

barcas expelem homens
arranha-céus fogueteiam golfinhos
asfaltos farejam sangue
igrejas engolfam espinhos

castanheiras torpedeiam carros
janelas se estilhaçam sobre fios
poetas se ventam sem semblantes
amores se desviam como rios.

01 fevereiro 2011

ACELERADOS



topei com um mendigo
numa avenida celerada
toquei-o
pra ver se era verdade
toquei-o
pra ver se era mentira
toquei
na sua ferida descarnada
para ver
para vê-la resistida.