04 outubro 2008

Chã Poesia

É mágica a poesia não-vivida, ou seja, a poesia que é escrita mas que não tem necessariamente a ver com a experiência imediata do poeta. Não que a poesia que reflete a vivência de um poeta seja necessariamente a plasmada em poesia, pois a poesia passa pela película viva dos pensamentos e da linguagem. A maioria da poesia é vivida internamente a partir de estalos da percepção, de projeções no sentido externo-interno-externo. A poesia não-vivida, suponhamos que a tenhamos, é o espírito em estado flutuante mas de vez em quando submergindo e, perdida a respiração, vindo à tona com as palavras da parte mais profunda da inconsciência.
Na verdade, a vivida - suponhamos que seja mais divertido escrever poesia do que se pensa e que poderíamos escolher uma poesia vivida e não-vivida - também é assim, entretanto, sua espacialidade experimentada faz com que os objetos poéticos sussurrem subliminarmente a poesia às asas em vôo naquele momento. Estas asas em vôo são os ouvidos do poeta face à construção poética.
Poderíamos até discutir se asas de poetas não estão cotidianamente em vôo (este circlunflexo irá cair com a nova revisão ortográfica, mas eu quero que ele fique porque este circunflexo é a minha única asa ). Certamente os poetas dirão que não. Vão dizer que precisam voltar à terra para escrever a poesia. Pois se eles possuem as asas, nem sempre os outros as possuem, então, é preciso que os poetas voltem para alguém lê-los. Mas, se olharmos atentamente, é notável que estão na maioria das vezes ausentes do chão. Conscientes do mundo mas ausentes do chão.
Ora ora, não poderia ser diferente.