29 junho 2008

Pipando

A J. , ser-pater
Ao pequeno G. , ser-quark

D'uma bolsa-pipa
pipocam, explodem pipas

coloridas, tangíveis

comestíveis, vitais


abastecem o céu da laje
de ecos de cor
de movimentos, de semblantes, de verdor

dupla pipa: são pai e filho

pipando no céu tal campo de lírio


mas nada é mais eterno:

são os olhos rodeantes do filho ao pai terno

no véu do céu

olhos esferas magnéticas

rodeando o anelo paterno


uma linha sustenta as pipas

que enovelam as nuvens,

carregam fitas


a linha firme (mas como afeto de vento)

riscando como um raio levante

o caminho das pipas: semblantes


já é noite - desçam - diz Ela com ar

de mãe entre os dedos afagando a linha

nina de seu ventre luz à Via Láctea

para sempre alumiar

o crepúsculo das pipas
.

Sonda

temos da vida
o que nunca queremos
e temos o corpo
que a alma envelhece a cada dia
que a si mesmo se deduz como expansão grandiosa
e única do universo

temos da vida
o que jamais teríamos
se a vida fosse uma outra vida
mais consciente do corpo que recolhe para o insondável.

28 junho 2008

Rosavento


Percorrendo a areia - era areia pois sentia meu pé arenoso -, sustentava uma rosa. Não a levantava com todo o vigor. Tórrido era o tempo e, engasgada por entre meus dedos, levemente retorcida em direção ao chão, ela ficava. Ou não ficava, pois eu a forçava ficar. Eu diria: ela me acompanhava em direção ao mar. Parei. Era preciso, as ondas forçavam os meus pés. Foi preciso, a rosa iria ser despedaçada ali. Ela encheria minhas mãos de pétalas avermelhadas. As ondas já forçavam novamente meus pés.
Tempo era de jogar as pétalas rubras ao vento. Bem acima de meus olhos. Bem acima do miolo da rosa esmigalhada pela palma de minhas mãos.
As pequeninas vermelhas - prenderia minha respiração se fossem azuis - caíram no espelho d'água. Pétalas, como sois vulgares, afundam e simplesmente se vão? Convém verter uma lágrima em sua memória.
Retomo uma gota da lágrima, pois as pétalas emergem no instante seguinte. Agora estão transfiguradas em pássaros vermelhos, cujas asas cintilantes espremem-se em rota para o horizonte.
Tem-se o corpo fraco neste instante. Era o domínio de uma flor que se esvai. Deixo meu corpo em rubor. Enrolado, pressinto o tórrido horizonte em trevas. Rubras, as nuvens perscrutam meus olhos. Nem sinto, porém, a luz que me cega.

Tempo-síntese


dorme
até o segundo seguinte do próximo dia

dorme
e sem sonhar
na escuridão do sono
não sintas o espaço e o tempo

esquece lembranças
e os insuportáveis desvios do SER

descansa da vida
não estando sem vida
e não esperes o próximo segundo
onde há de acordar para um novo dia
e permitir a contagem do tempo
círculo repetitivo da motricidade do pensamento

por isso dorme
enquanto há tempo-síntese
da inércia de todo homem.