11 novembro 2009

Blecaute, mon amour!

Criado na centelha, o pavio queima veloz. A bravia parafina se derrete por inteira feroz. A vela acaba. Mais uma vela! - Olha o vento... Um círio desta vez! Algo vai bem mal quando o círio do apagão acaba. Tatibitati: no dia seguinte, o que derrete primeiro, uma vela, um círio ou o Governo?

02 novembro 2009

Poesia babélica

Para quem gosta de poesia, gostaria de indicar um ótimo site, que, pasmem, já existe há dez anos, aliás, recém-completados (1999-2009). Chama-se lyrikline.org, e é um projeto vindo da Alemanha. É um site que reúne poesias em várias línguas, com suas respectivas leituras em áudio. Até aí nada de mais. O que o diferencia é o fato de os poemas serem lidos por seus próprios autores, além da diversidade dos idiomas acolhidos pelo site. Até a data deste texto, pude contar 51 diferentes idiomas, sendo que o número pode aumentar, pois o que diferencia o site é fato de estar aberto a entradas de novos poetas e idiomas. Pelo o que pude ler, há uma avaliação dos poemas, a fim de que não entre 'qualquer coisa', mas poemas que realmente possam representar contemporaneamente dado idioma. É claro que a disponibilidade do poeta para ler os seus próprios poemas também conta. O site possui a tradução de várias poesias para outros idiomas, sobretudo para o alemão. Para além do fato de o projeto do site ser da Alemanha, é surpreendente como a maioria dos poemas é traduzido para o idioma deste país. Também podemos encontrar no site áudio e texto de alguns poetas já falecidos como , por exemplo, William Butler Yeats, Hermann Hesse (que também escreveu poesias), Paul Celan e Bertolt Brecht. No caso do português, é delicioso poder ouvir, além de alguns de nossos poetas contemporâneos (Paulo Henriques Britto, Marco Lucchesi etc), aqueles de Portugal e dos países africanos de fala portuguesa. Vide, por exemplo, os temas belíssimos que são desenvolvidos por poetas de Moçambique, Angola, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.
O site também é uma boa porta de entrada para aqueles que precisam aprimorar ou aprender idiomas, e até mesmo para os que apenas possuem a curiosidade - muito válida no caso de poesia - de poder ouvir textos poéticos em outros línguas. Digo isto porque, até mesmo não entendendo a língua, a audição de um poema por seu próprio autor é marcante. Não só para perceber a maneira como cada um declama as suas palavras, uns mais vagarosamente, outros de forma cantada ou impostada, mas para compreender com profundidade como a poesia está cativada em sua essência pelo ritmo e pela musicalidade das palavras. Talvez por isto é possível responder por que tantos poetas aceitaram ler e gravar seus poemas, aceitando divulgar as suas produções poéticas em proximidade com o áudio. Há uma intuição de que a presença do som em sua materialidade declamada enriqueça ainda mais o poema. Ao mesmo tempo, penso que tal decisão de disponibilizar a própria voz para os próprios poemas não deva ser tão fácil para os poetas. Ao se ler e gravar de uma dada maneira um poema, sobretudo quando este leitor é o próprio autor, retira-se um pouco a natureza aberta tão característica da poesia, no que tange à leitura em voz alta pessoal que cada leitor poderia oferecer ao poema.
No mais, o site é uma experiência única. Cada navegante poderá escolher os seus poemas por autor, em ordem alfabética, ou por língua. Ademais, ainda encontrará a biografia, as publicações e os prêmios recebidos por cada autor. Sem dúvida, considero o lyrikline um dos sites mais relevantes criados nos últimos anos para a divulgação e a defesa da poesia. É um site que prova que os homens podem se encontrar sim. E este encontro tem a sua porta aberta pela poesia. Acima de tudo pela voz poética, que, mesmo incompreensível idiomaticamente, possui uma força compreensiva, ou seja, uma positividade compreensiva. Algo como: não entendi nada, no entanto, compreendi.
O endereço é o seguinte: http://www.lyrikline.org

Passagem IV entre cotovelos

[Os oprimidos dormem, os revoltados também; o mundo está enterrado, a história retoma fôlego. Resta, numa bolha de luz rodeada pelo nada, essa elite que vela, totalmente ocupada com as suas cerimônias. Se, entre os seus membros, existem intrigas, amores e ódios, não ficamos sabendo e, aliás, os desejos e as cóleras emudeceram: esses homens e mulheres estão ocupados em conservar a sua cultura e as suas boas maneiras, e em se reconhecer pelos ritos da cortesia.]

(Jean-Paul Sartre, Que é a literatura?, São Paulo: Ática, 1989 [Qu'est-ce que la littérature?, 1948], pág. 106).