Foi viajar e os livros estavam adormecidos naquele período. Tratara de colocá-los com ternura em caixas coloridas, nas quais, nos próximos meses, repousariam como bibelôs num canto da sala.
Sua mãe não lia. Seu pai não lia. Seu irmão não lia. As vizinhas de sua mãe não liam. Não teria sentido deixá-los expostos por todo este tempo. E, além do mais, Eles, os livros, não queriam ir nem para uma biblioteca, nem para casa de amigos. Não suportavam a iminência do fim da constante ternura dia após dia de seu dono. Dos toques de seu dono. Da pureza infinita do toque de seus dedos delicadamente roçando uma passagem relida com ardor. Os objetos respiravam profundamente. Sabiam que não eram os fins.
Meses se passaram. Sua mãe já expunha as caixas na sala para o serviço das visitas. Algumas já viravam encosto para um lustre. Outras haviam sido colocadas de cabeça para baixo em outros cantos. A matriarca tinha esquecido que os livros tinham sido colocados cuidadosamente de capa para cima. Respiravam de capa para cima.
Numa noite úmida e quente, sua mãe acordou exasperada pelo calor. De pés descalços, sentiu um líquido bater na sola de seus pés, vindo das caixas coloridas. Agachou, jogou no espaço quatro dedos e os raspou no chão, a fim de tatear o material residual que se disseminava. Jogou os olhos para as caixas: estavam úmidas. A mãe naturalmente olhou para cima: possivelmente era uma infiltração no apartamento. Jogou então as caixas para outro canto. Mas estava seco o chão. Resolveu abri-las.
Um minuto antes tinha esquecido o que tinha ali. As caixas já eram mistérios para o seu olhar. Afinal de contas, já havia passado dois anos. Mergulhou assim seus braços largos e suas mãos, que desciam aninhadas com a ajuda de seus dedos. Percebeu que os livros, em pares, estavam colados uns aos outros. Em seguida, quando tentou separá-los, cada casal de livros se rasgavam também uns nos outros. Suas letras impressas escorriam enegrecidas e se manchavam mutuamente. Os casais de livros pareciam tão aderentes uns aos outros que suas folhas, intricadas num bloco só, pareciam um material cardíaco com íntimas veias que, aparentemente emboladas e sem orientação, sabem com precisão para onde seguem, como seguem e que nutrientes levam consigo mesmas. E a mãe percebeu que os livros se amavam uns aos outros. E percebeu que os livros liam uns aos outros. E, na iminência de um toque estranho, suicidavam-se uns em frente aos outros.
Sua mãe não lia. Seu pai não lia. Seu irmão não lia. As vizinhas de sua mãe não liam. Não teria sentido deixá-los expostos por todo este tempo. E, além do mais, Eles, os livros, não queriam ir nem para uma biblioteca, nem para casa de amigos. Não suportavam a iminência do fim da constante ternura dia após dia de seu dono. Dos toques de seu dono. Da pureza infinita do toque de seus dedos delicadamente roçando uma passagem relida com ardor. Os objetos respiravam profundamente. Sabiam que não eram os fins.
Meses se passaram. Sua mãe já expunha as caixas na sala para o serviço das visitas. Algumas já viravam encosto para um lustre. Outras haviam sido colocadas de cabeça para baixo em outros cantos. A matriarca tinha esquecido que os livros tinham sido colocados cuidadosamente de capa para cima. Respiravam de capa para cima.
Numa noite úmida e quente, sua mãe acordou exasperada pelo calor. De pés descalços, sentiu um líquido bater na sola de seus pés, vindo das caixas coloridas. Agachou, jogou no espaço quatro dedos e os raspou no chão, a fim de tatear o material residual que se disseminava. Jogou os olhos para as caixas: estavam úmidas. A mãe naturalmente olhou para cima: possivelmente era uma infiltração no apartamento. Jogou então as caixas para outro canto. Mas estava seco o chão. Resolveu abri-las.
Um minuto antes tinha esquecido o que tinha ali. As caixas já eram mistérios para o seu olhar. Afinal de contas, já havia passado dois anos. Mergulhou assim seus braços largos e suas mãos, que desciam aninhadas com a ajuda de seus dedos. Percebeu que os livros, em pares, estavam colados uns aos outros. Em seguida, quando tentou separá-los, cada casal de livros se rasgavam também uns nos outros. Suas letras impressas escorriam enegrecidas e se manchavam mutuamente. Os casais de livros pareciam tão aderentes uns aos outros que suas folhas, intricadas num bloco só, pareciam um material cardíaco com íntimas veias que, aparentemente emboladas e sem orientação, sabem com precisão para onde seguem, como seguem e que nutrientes levam consigo mesmas. E a mãe percebeu que os livros se amavam uns aos outros. E percebeu que os livros liam uns aos outros. E, na iminência de um toque estranho, suicidavam-se uns em frente aos outros.