Lembro-me agora do momento em que voltava para casa, já no começo da manhã do primeiro dia de 3026.
O ônibus que nos levou de volta estava muito cheio. Estávamos extremamente cansados. Ficamos a madrugada inteira caminhando ao longo da praia, após a aurora boreal da meia-noite.
Mas o que queria buscar é a lembrança dos corpos cansados, os quais pude observar nos longos minutos que passei com os meus amigos no ônibus, tentando atravessar uma das principais ruas daquele Deserto, pleno que estava às 5 da manhã, parecendo um meio-dia ensolarado.
Não era um meio-dia ensolarado, pois o sol ainda nascia fresco. Na linha reta em que seguia o ônibus, costeávamos algumas ruas perpendicularmente, que apontavam para o mar, e, como aquelas frestas de luz que incidem às cegas em nossos olhares numa manhã primordial, observávamos o nascer do sol por etapas. A cada rua que cortávamos feito a lâmina na pele, o sol assumia uma vermelhidão infinita, nos conduzindo a uma atmosfera de origem do mundo.
Parece-me, no entanto, que poucos no ônibus tiveram a oportunidade de contemplar esse primeiro quero-quero da manhã. Eu mesmo estava de pé e, por vezes, até meu cansaço colocava em trevas todas aquelas passagens.
Alguns já dormiam quando estávamos entrando pelo ônibus adentro. Uma menina recostava sua cabeça no ombro dum rapaz com os olhos meio vermelhos. Parecia refletir um eclipse solar. Outro rapaz aproveitava as costas do banco à sua frente, deixando cair-se sobre os seus braços cruzados. Muitos estavam em pé, sustentados porém envergados por braços cansados. Alguns estavam com braços nus, porque suas mangas desciam com o chacoalhar do ônibus.
Já tínhamos nos tornado uma comunidade. Mas, ao contrário duma comunidade que poderia se formar no meio daquele Deserto dentro do ônibus ao meio-dia, éramos uma comunidade silenciosa. No silêncio, atravessamos uma baía, um lago, um areal, uma planície, com algumas montanhas sonolentas encimando os nossos olhares. No silêncio, o vento fresco da manhã nos convidava para um novo princípio. As árvores passavam ao longo do final do caminho, com sua ossatura protegida pelo antivazio das folhas. E, a partir daqui, fomos nos dispersando. Cada um descia em direção a uma Vida. Cada um levava um mundo. Como sempre fazíamos na primeira manhã depois da aurora boreal.
O ônibus que nos levou de volta estava muito cheio. Estávamos extremamente cansados. Ficamos a madrugada inteira caminhando ao longo da praia, após a aurora boreal da meia-noite.
Mas o que queria buscar é a lembrança dos corpos cansados, os quais pude observar nos longos minutos que passei com os meus amigos no ônibus, tentando atravessar uma das principais ruas daquele Deserto, pleno que estava às 5 da manhã, parecendo um meio-dia ensolarado.
Não era um meio-dia ensolarado, pois o sol ainda nascia fresco. Na linha reta em que seguia o ônibus, costeávamos algumas ruas perpendicularmente, que apontavam para o mar, e, como aquelas frestas de luz que incidem às cegas em nossos olhares numa manhã primordial, observávamos o nascer do sol por etapas. A cada rua que cortávamos feito a lâmina na pele, o sol assumia uma vermelhidão infinita, nos conduzindo a uma atmosfera de origem do mundo.
Parece-me, no entanto, que poucos no ônibus tiveram a oportunidade de contemplar esse primeiro quero-quero da manhã. Eu mesmo estava de pé e, por vezes, até meu cansaço colocava em trevas todas aquelas passagens.
Alguns já dormiam quando estávamos entrando pelo ônibus adentro. Uma menina recostava sua cabeça no ombro dum rapaz com os olhos meio vermelhos. Parecia refletir um eclipse solar. Outro rapaz aproveitava as costas do banco à sua frente, deixando cair-se sobre os seus braços cruzados. Muitos estavam em pé, sustentados porém envergados por braços cansados. Alguns estavam com braços nus, porque suas mangas desciam com o chacoalhar do ônibus.
Já tínhamos nos tornado uma comunidade. Mas, ao contrário duma comunidade que poderia se formar no meio daquele Deserto dentro do ônibus ao meio-dia, éramos uma comunidade silenciosa. No silêncio, atravessamos uma baía, um lago, um areal, uma planície, com algumas montanhas sonolentas encimando os nossos olhares. No silêncio, o vento fresco da manhã nos convidava para um novo princípio. As árvores passavam ao longo do final do caminho, com sua ossatura protegida pelo antivazio das folhas. E, a partir daqui, fomos nos dispersando. Cada um descia em direção a uma Vida. Cada um levava um mundo. Como sempre fazíamos na primeira manhã depois da aurora boreal.