23 agosto 2009

Protossaber

As letras hebraicas são notas musicais quadráticas, pontuadas para não fenecerem as vogais.

Toda língua que não sabemos - mas que gostaríamos de saber -, torna-se objeto de todos os nossos sentidos, interligados loucamente a fim de que possamos compreender um pouco de uma materialidade inicialmente ininteligível. São as primeiras afinidades eletivas linguísticas. É o protossaber de uma nova língua que desejamos antes de sua realidade comunicável e visível por meio da razão. Em suma, as línguas surgem primeiro na imaginação sonhadora. São sonhadas antes de que os fatos linguísticos nos induzam à vigília do saber.


A frase árabe estende-se como linha sinuosa, pontual e sensual.

07 agosto 2009

Biblioteca Brasiliana

A doação da biblioteca de obras brasileiras de José Mindlin à Universidade de São Paulo, bem como a sua digitalização, é mais um marco digno de crédito à internet por parte de alunos e pesquisadores que necessitam de fontes seguras para suas pesquisas de curto ou longo prazo. Estamos chegando a um momento que já podemos confiar, pela alta qualidade técnica e pelo trabalho rigoroso, de alguns sites da web referentes a várias ciências. Mesmo a área de Literatura, que acreditávamos que fosse uma Arte que a internet não daria conta, já possui a sua parcela de alta qualidade na rede. Hoje é possível baixar livros com segurança e sem erros, além de termos acesso a suas imagens originais. Temos com isto o acesso a obras importantíssimas e raras às quais só conseguiríamos ter com uma trabalhosa pesquisa em bibliotecas físicas. A biblioteca Brasiliana, com os aupícios da USP e, sobretudo, consequência da paixão vital de um brasileiro pelos livros, é um grande exemplo do novo patamar que a internet vem atingindo. Oxalá possamos um dia também respeitar a nossa língua no modo como nos expressamos na internet da mesma maneira que, cuidadosamente, os livros de Mindlin vem sendo escaneados - por um robô chamado Maria Bonita - e colocados à disposição do público.
O site da Biblioteca Brasiliana é: www.brasiliana.usp.br

06 agosto 2009

De perfil

Deixa eu contar. Um dia encontrei um cão. Ele dormia enquanto um temporal riscava a rua à sua frente. O vento rajava. Ele se encolhia igual aquela minhoca sobre si mesma que encontramos no jardim botânico e que, estandando sem casa, resolvera dormir no rosário - dentro duma rosa. Aquele cão era despreocupado. Despretensioso. Com seu pelo, suas patas, seus caninos, seu rabo vulgares. Não se igualava àquelas cocotes que encontrávamos todo dia pelo manhã na praia aos domingos segurando cadelas que pareciam ter levado um susto. Ele era cão e nada mais. Nada mais podia partir de seus olhos que a concretude da vida. Se aquele cão fosse triste, ele seria triste e pronto. Pronto pra morrer, salvar sua vida ou viajar de barca na proa com o vento refrescando o seu pelo em liberdade. Nada, quase nada, rasgaria o seu ser. Porque o cão não se iludia. O arrepio de seus pelos é o despertar de cada instante. Como o da chuva derramada ao lado dele. Desse cão, te digo: ele era inaudível. Mas havia um globo de luz que lhe assistia e o desvelava na rua. Aquele cão era cão. Mas poderia ser um coração brega abandonado.

05 agosto 2009

Tríptico dos infernos

Como adendo à postagem anterior, cito três pontos contra os quais devemos lutar, a fim de termos uma Universidade mais saudável e possível - que valha a pena - como experiência. Portanto, são três as pragas que mancham a nossa Universidade. Elas roem cada vez mais o funcionamento desta. Roem as almas dos estudantes. Essa tríplice aliança pode ser encontrada sugerida no belíssimo ensaio "A vida dos estudantes" (1915), de Walter Benjamin. Ei-las:

1. Predomínio da informação sobre a formação;

2. Predomínio do ensino utilitário sobre a busca da totalidade do ser;

3. Predomínio da rotina burocrática sobre o espírito de pesquisa.