26 julho 2008

Retroato


Nossos dias passaram e não os documentamos em nossos próprios espíritos. As memórias foram parciais quando submetidas às decisões do tempo. Decidiu-se pelo advento de um tempo futuro, com resquícios valorativos de um passado cada vez mais distante. Imaginamos, então, parcialmente o passado que, com fantásticas atitudes inexistentes, nos reforçam para um futuro com fim.
Os porta-retratos da sala são levemente antigos. Legam aos nossos olhos cotidianos a persistência de um passado quebrado e disforme. Já não mais temos aqueles sorrisos, nem aquela união, muito menos a consistência daquela alegria. Somos para cada lado de nós atualmente, inclusive quando firmamos os olhares presentificados naquelas faces enquadradas nos porta-retratos, cujas molduras estão carcomidas pela ausência da afirmação alegre de vivências atuais alegres. As memórias parecem se revolver formalmente alegres somente com a soberania de um grau presente de alegria ao menos interna. Não o temos. Não documentamos também nossos graus de alegria interna. Contraímos, portanto, a existência interna.
Nossos esqueletos seguram maçãs podres e nossos porta-retratos chafurdam a terra para o enterro de nossas memórias. As janelas se fecham. As flores murcham. A atmosfera e o ambiente congelam-se no período glacial interno de nossa casa. As fotografias são tiradas. Enegrecidas de cinzas são expostas nos porta-retratos. Já estão documentados os nossos resquícios.