12 junho 2015
Sonda
À distância da Lua
lancilua nodosa
corpos sobre o nácar labiríntico
maciez das sombras
glacê em camadas noturnas
voz jazz rútilo zás
clamante dantes aurora
luz, clavicórdio na boca glosa
telúrica goma cambaleante onda
surfe magnético na galáxia Sonda
lancissonda na ludilua leitosa
pluma fronde clava gris glu-glu.
02 fevereiro 2015
Sem título
O céu da boca
engole o Sol da meia-noite
Sobrevêm as estrelas cadentes
prenunciando a aurora
O astro na ponta da estrada
sulca os pés nas sombras dos gramas da alma
cintila um rastro de poeira
cósmica e relativa
Os lábios ondeiam o horizonte
devoram luz
sorvem trevas
camadas de adjetivos fátuos
(A boca da Lua à meia-noite
no largo esquerdo do peito irisado)
O Sol candente sonha na neblina do corpo
aurora as mãos
candeia os movimentos
A pele orvalha
as gotas fremem
Sinto que vêm
o espanto da manhã
a sutura do vento
a dança das flores
Vem como como boca
e me anuncia.
02 janeiro 2015
Ano-Novo
Você insiste na praia. As solas de seus pés fazem um arco sobre a areia úmida. Seu rosto, guiado pelo horizonte, acompanha as ondas. Os cabelos esvoaçam, entregues à soberania convulsa do ar livre. O empuxo do vento sobre o seu pescoço faz dobrá-lo arcaicamente. Os olhos fechados, as sobrancelhas arqueadas e desaparecidas num voo de pássaro, a boca magra, com um leve sorriso enternecido, lembram uma cabeça de Modigliani.
Começa a chover, e uma gota espichará na areia como um cometa arrasando os seus pretextos de mulher abandonada e dramática. Não sei por que você chora, só olho de cima, e não vou me preocupar se uma beleza quase extinta se dissolver na espuma das ondas, enquanto sorvo daqui de cima esta chuva oblíqua, que risca meu rosto sem piedade, como faria o desgraçado de seu irmão gravurista tateando o indefinido.
Fique aí embaixo. Não lhe perdoo, embora pressinta que minha amargura não acabará com a sua beleza, nem me fará esquecer o gozo daquele jardim das delícias. Mas só sua beleza importa a si mesma, e eu não aguento mais sofrer sem uma dor que me comove, sem um belo que ao menos me assista.
Quer saber, só estes fogos de artifício me comovem, e, se eles explodem e silenciam, é porque tudo ainda pode acabar com um movimento ambíguo e indefinido. Pois eu não poderia dormir toda noite se ao menos uma memória comovente não me aguardasse para me prantear todas as manhãs.
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