21 setembro 2008

Passagem

Lembro-me agora do momento em que voltava para casa, já no começo da manhã do primeiro dia de 3026.
O ônibus que nos levou de volta estava muito cheio. Estávamos extremamente cansados. Ficamos a madrugada inteira caminhando ao longo da praia, após a aurora boreal da meia-noite.
Mas o que queria buscar é a lembrança dos corpos cansados, os quais pude observar nos longos minutos que passei com os meus amigos no ônibus, tentando atravessar uma das principais ruas daquele Deserto, pleno que estava às 5 da manhã, parecendo um meio-dia ensolarado.
Não era um meio-dia ensolarado, pois o sol ainda nascia fresco. Na linha reta em que seguia o ônibus, costeávamos algumas ruas perpendicularmente, que apontavam para o mar, e, como aquelas frestas de luz que incidem às cegas em nossos olhares numa manhã primordial, observávamos o nascer do sol por etapas. A cada rua que cortávamos feito a lâmina na pele, o sol assumia uma vermelhidão infinita, nos conduzindo a uma atmosfera de origem do mundo.
Parece-me, no entanto, que poucos no ônibus tiveram a oportunidade de contemplar esse primeiro quero-quero da manhã. Eu mesmo estava de pé e, por vezes, até meu cansaço colocava em trevas todas aquelas passagens.
Alguns já dormiam quando estávamos entrando pelo ônibus adentro. Uma menina recostava sua cabeça no ombro dum rapaz com os olhos meio vermelhos. Parecia refletir um eclipse solar. Outro rapaz aproveitava as costas do banco à sua frente, deixando cair-se sobre os seus braços cruzados. Muitos estavam em pé, sustentados porém envergados por braços cansados. Alguns estavam com braços nus, porque suas mangas desciam com o chacoalhar do ônibus.
Já tínhamos nos tornado uma comunidade. Mas, ao contrário duma comunidade que poderia se formar no meio daquele Deserto dentro do ônibus ao meio-dia, éramos uma comunidade silenciosa. No silêncio, atravessamos uma baía, um lago, um areal, uma planície, com algumas montanhas sonolentas encimando os nossos olhares. No silêncio, o vento fresco da manhã nos convidava para um novo princípio. As árvores passavam ao longo do final do caminho, com sua ossatura protegida pelo antivazio das folhas. E, a partir daqui, fomos nos dispersando. Cada um descia em direção a uma Vida. Cada um levava um mundo. Como sempre fazíamos na primeira manhã depois da aurora boreal.

14 setembro 2008

The Dog's show

Certo dia, um menino avistou, quando atravessava uma grande avenida, um cão com nulidade de espírito e corpo miserável. O cão atravessou o caminho do menino. Mas o menino fingiu não olhar o cão. Pois o cão poderia pensar que estava sendo amado e o menino não pretendia naquele momento amar alguém. Então, o menino olhou para o céu e do céu para o sinal que estava na iminência de abrir. O sinal abriu. O menino já atravessara a grande avenida. O cão atravessara também, no entanto, na borda da calçada, se coçou, parou e se deitou por ali mesmo. O menino seguiu e não olhou para trás. O cão se estendeu e encostou o focinho no asfalto para se esquentar. Ele amava esquenter o focinho naquela quentura de carros vibrantes e vivos. Ele adorava amar o desamável.

Imago

na pequena rua noturna
com luz úmida e melancólica
os passos se arrastam
sobre pequenas gotas
que prenunciam o despertar
duma aurora chuvosa
e breve.

A lagarta se arrastava pelo beco úmido. As duas pequeninas crianças se chegaram. Com seus desassossegados dedos, começaram a fazer cosquinhas na lagarta verde com listas ondulantes e amarelas. A criaturinha se enrolava, unindo os seus dois pólos. Parecia se divertir. Parecia ser. As crianças gargalhavam com o mirabolante movimento do animal. Jogavam-se ao lado dela e mexiam seus braços também, a fim de imitá-la na insistente diversão. Eram pré-homens. As crianças pareciam entender a lagarta. Era pré-borboleta. Completava-se o jogo com o beco, o qual era outrossim pré-rua ou enigmático microcosmo onde se dava o divertimento entre duas crianças e um pequeno pedaço de fita verde com listas ondulantes e amarelas: pré-mundo do existir.

07 setembro 2008

Circular

A rua ainda estava lúcida, mas os carros que a seguiam não. Um desses, muito nobre, parou próximo a uma árvore, onde a luz pública, da madrugada e pálida, não penetrava. Os faróis vermelhos, com uma parada suave, perscrutavam o metro à frente do carro. As folhas secas se destacavam dos galhos e caíam com o vento, que as fazia circular em meio ao vazio da rua.

A porta do automóvel se abriu, sem escancarar. Dizia o homem ao lado: 'Saia!' Um primeiro passo e um brilho sem igual semiluziu o tronco da árvore. Saía com um vestido de lantejoulas prata. Visível era agora sua meia, trançada como uma teia. Uma aranha profissional identificava ali o labor cuidadoso de um percurso... Tocava o chão com o salto-agulha. O toc-toc de sua caminhada era o sumiço do carro que ali se avizinhava. As sombras desistiram de qualquer aproximação.

Na rua transversal, outro automóvel vinha. Nobre objeto de quatro rodas que assim rodava sem direção. O vestido brilhou contra o vidro e o vidro sujeitou o olhar. Já tinha dado dez passos desde a saída do outro nobre. O outro carro parou. Aproximou-se da outra porta, descendo levemente sua meia aracnídea. Ainda se via sua coxa recém-depilada. Aproveitara algum banheiro em meio a madrugada para fazer a toilette. O homem, suado, deixou que escorregassem os óculos de seu nariz. Disse apenas em seguida: 'Entre!' Suas pernas envergaram. O vestido se enlameou ao banco traseiro. O nobre seguiu. O ar tilintou no ar. E sorriu.