27 dezembro 2010
signos e desígnios
os alfabetos são como rios
uma vez destemidos
nos elevam pelos mundos
doces murmúrios
envios em chamas.
24 dezembro 2010
mesquinas
Amplas esquinas - perigosos caminhos.
O mendigo é um querubim tendente à queda livre no cruzamento de todos os caminhos de uma esquina sem vida. Com vida, a queda é de graça.
Bem-aventurados aqueles que não são hipócritas já na esquina.
Banqueiros assoam a sua suposta humanidade na esquina. Nem isso se estiver chovendo.
Esquinas iluminadas - homens desiludidos.
13 dezembro 2010
08 dezembro 2010
11 novembro 2010
modinha
ele vestia um Ray-Ban
fundo de garrafa:
era bandido
era banido
quase fodido
com seu Ray-Ban
de garrafa vã:
ban-ban-bang
Ray-Ban
bam-bam-bã
Ray-Ban.
20 outubro 2010
lusco-fuscos
Lembrar de dispor
os dentes-de-leão
sobre os olhos
no crepúsculo das tardes de verão:
lembrar dos seus odores.
06 outubro 2010
cinco perguntas para bebês pensantes
O que é o Universo?
*
*
O que é a Vida?
*
*
*
O que é a Consciência?
*
*
*
*
O que é a Linguagem?
*
*
*
*
*
O que não é Deus?
*
*
*
*
*
*
16 agosto 2010
09 agosto 2010
desiderato
"Eu gostaria de fazer espetáculos para o Exército, a Marinha, a Aeronáutica, para os burocratas, burgueses, especuladores, porque são pessoas miseráveis, mesmo sendo ricas e poderosas. Espiritualmente, essas pessoas são paupérrimas, já que são presas aos papéis que a dominação exige, pelo capitalismo, pelas oligarquias. Eu gostaria de atingir essas pessoas também, porque, se não atingi-las, o mundo não muda."
02 agosto 2010
passagem de ida e volta
O que quis dizer, em seu blog, sobre o brasileiro ter "horror às distâncias"?
"Até para conquistar freguês, o brasileiro precisa fazer dele um amigo. É aquela coisa: o livro que me fez analfabeto foi Os Sertões, ao mostrar que o amor que eu tinha por saber, a universidade não tem. Ela o tem por uma inteligência que Sérgio Buarque de Holanda dizia não ser para unir e trabalhar, mas exibir em salões. Não é ferramenta de parceria e trabalho coletivo. É uma inteligência que separa. No Nordeste, a inteligência une. Quem conversa gosta de conversar, mas também de aprender. Luto para ir às pessoas com assuntos, não com exibição de saberes. A língua, que é a coisa axial do trabalho, é aquilo sobre o qual me prevaleço."
(Entrevista. Tom Zé. "No ritmo do 'analfatóteles'". Em: Revista Língua Portuguesa, ano 4, n. 57, julho de 2010, pp. 12-13).
26 julho 2010
17 julho 2010
13 julho 2010
rarefação
tartarugas à tona respiram
baleias à tona esguicham
navios ao longe apitam:
adeus a ilhas vazias
ondas sulcam as rochas
algas são suspensas já mortas
corações desmentem amores
raros e de muitos dissabores
em mares marcados por bolores
rarefatos corações vêm à baila
vêm e revêm à baila
pobres dejetos de desejos
são apenas trejeitos
em ares rarefeitos e liquefeitos.
08 julho 2010
esperança cerrada
com o punho esquerdo cerrado
vide abaixo do polegar minado
para com uma caneta
apontar uma estrela
do sempre esperançar.
04 julho 2010
02 julho 2010
18 junho 2010
José Saramago (1922-2010)
"Estamos afundados na merda do mundo e não se pode ser otimista. O otimista, ou é estúpido, ou insensível ou milionário."
José Saramago.
"Estaremos estranhamente conectados à bondade do mundo".
Cravos se desmancham no ar.
Não esqueceremos.
Não esqueceremos.
13 junho 2010
inverno
il presente è piccolo e insipido per natura a tutti gli uomini (Leopardi).
no inverno, o Sol descansa mais cedo
o Sol se cansa dos homens mais cedo no inverno
mas há, para arrefecer a certeza dos homens,
dois lados da Terra
um do descanso
outro do balanço
embora haja para neutralizá-los
o centro do Terra
e a Terra fora do centro.
24 maio 2010
pulologia (jumpology)
Quando se pede para alguém pular, as máscaras do sujeito caem.
Mas este alguém não pode ser um bailarino.
Este alguém precisa ser ninguém no pulo.
O pulo lança este alguém no ninguém.
O pulo é desmistificador do sujeito.
Ele desestabiliza para uma entrada rápida no além-eu.
Por exemplo, um pulo é parecido com uma verdadeira literatura.
21 maio 2010
20 maio 2010
rastro
o cheiro dos livros
com uma solidão
com uma melodia (a melodia)
que me leva da luz
enleva a luz
tenebrosa luz
que me conduz à escuridão.
11 maio 2010
A derrota da página em branco III
"Escrevemos para recordar ou para ir adivinhando o desconhecido? Certa vez Julio Cortázar recomendou: "Conte a história como se só fosse de interesse para o pequeno círculo de teus personagens, pensando em que poderias ser um deles." Eu não encontro uma melhor recomendação para os que quiserem se meter neste caos que é escrever quimeras. Inventar mundos é querer adivinhá-los. Quem são eles? Quem foram? O que pensavam? O que os comovia? Onde vivem? A quem desejam? A que se atrevem? É para isso que escrevo romances. Para sonhar com outros, para inventar pessoas que gostaria de conhecer, com as que me façam bem conviver durante horas, durante dias estendendo-se por anos. O que me acontece não preciso reinventar, e quando tento fazer algo assim sempre termino aceitando que a história que conto foi minha. Escrever é um jogo de precário equilíbrio entre a coragem e a soberba. Também entre seus opostos: o medo e a humildade. Sobre como escrever, sobre os truques e os equívocos, não sei falar muito bem. A única coisa que sei com a claridade da água é que escritor é quem escreve todos os dias, todos os momentos livres e sempre que observa algo, ainda que não tenha lápis, nem teclas com as quais deixar constância de suas palavras."
[fonte: Ángeles Mastretta, no El País.com, em 17/04/2009; tradução livre]
10 maio 2010
fórceps
Esquecer a própria língua para apreender outras. E justamente amá-la muito mais quando do retorno de terras tão distantes.
Mas o que fazer se a própria língua é um desatino dentro de si mesma? Como tornar o desatino com mais tino para a entrada - pela porta estreita - do passageiro estrangeiro?
É preciso renascer na língua estrangeira. Mas o nascimento não será romanticamente natural.
Será de fórceps esse nascimento sempre excepcional e estranho. Esperemos que, antes da porta se estreitar, ele não surja natimorto.
Pois é de se compreender que algumas línguas não nascerão nem natural nem artificialmente dentro de nós.
No entanto, sonhos podem persistir em ventres mais livres e, à força, mais insistentes.
30 abril 2010
miudezas de criança
x. um vento forte é Deus soprando do céu.
y. raios são móveis lá de cima sendo arrastados e riscando o chão do céu.
26 abril 2010
A derrota da página em branco II
"Conselhos a um principiante para enfrentar a página em branco: tratar de driblar a plúmbea tradição acumulada e buscar percepções, ideias novas. Agora, para driblar é necessário ter lido previamente muito. Pode parecer paradoxal, mas somente tendo lido muito se pode tentar a aventura de ir em busca do frescor, do gesto que devolva à arte a potência que teve em suas origens. Por isso, me surpreendem os escritores jovens que dizem escrever sem previamente ter lido bastante. Aos que dizem passar de Dickens e Proust, quero adverti-los que, como a escrita é uma carreira de fundo, com o tempo podem ficar sem uma lamparina em seu cérebro literário e se converter em desenhista de gibis, mas não em escritores. Em resumo: recomenda-se ler e ser contemporâneos. Esse último parece óbvio, mas tenha em conta que na literatura espanhola [brasileira?] algo tão simples como ser contemporâneo tem sido geralmente uma raridade."
[fonte: Enrique Vila-Matas, no El País.com, em 17/04/2009; tradução livre]
20 abril 2010
A derrota da página em branco
"Parto de uma atitude permanente no sentido de que a manifestação ou a presença do pensamento poético é uma parte de minha vida. Esse pensamento poético, para dizê-lo de alguma maneira, permanece imobilizado, mas está comigo todo o tempo. E, em algum momento, uma parte de meu cérebro que os cientistas estão localizando em nós, põe em marcha esse pensamento poético de que falo, o qual, no meu entender, difere de qualquer outra modalidade de pensamento. É uma linguagem interior que se ativa ritmicamente, em sua aparição há um desencadeante musical, e esse pensamento rítmico é identificável como pensamento poético. O que não se deve fazer, sem que isso seja um lei de aplicação geral, é criar um projeto, programar, criar algumas metas ou significações prévias com fins de escrita poética. Não é precisamente o automatismo puro dos surrealistas, mas sim uma atividade que não deve ser intervinda por outras formas de pensamento. Finalmente, de maneira quiçá não perceptível, para o poeta até o final aparece sim um sentido, um conhecimento que parte do não saber, o que dizia Juan de Yepes, ao saber, ao conhecimento, mas por mecanismos que não são a indagação, o estudo ou a indagação prévia."
[fonte: Antonio Gamoneda, no El País.com, em 17/04/2009; tradução livre]
18 abril 2010
cerejas
Silêncio! Período de cerejeiras em flor. - Vede, silencioso, as cerejeiras silenciadas sob a aurora das flores. Uma flor de cereja: para cada silenciador: para cada silenciamento...
11 abril 2010
chor
Há um cheiro de chorume no ar
estamos incólumes?
- estou num chorume,
me amassa...
sinto as veias vazarem.
chove?
Sim. Lixo e Chorume
no vento: breves pontadas
logo escorridas.
22 março 2010
leitura-néon
Sinuosamente, os olhos preenchem as letras como com canetas fluorescentes. O negro é o neutro; o colorido, a compreensão. Falo da leitura-néon. Com um leve toque nas têmporas, pode-se alterar as cores e suas intensidades. Com um toque, a cor muda. Com vários toques, a intensidade ascende. A cor é a luz-néon. Gás que se prende às sinuosidades das letras, e que rasga de luz através da energia do olhar. Não é preciso marcadores de páginas. Não é preciso ocupar o espaço entre as folhas com um objeto estranho, nem pedaço de folha, flor, tecido nem meia fina. Com o olhar-néon, as letras luminescentes, no dia seguinte, ainda indicam o lido. As letras permanecem iluminadas marcando a presença do leitor, e deixando estantes, cantos, mesmo casas abandonadas com livros abandonados, mais iluminados. Se aparecerem novos leitores-néon para um mesmo livro, um novo néon surge empurrando o velho néon pra fora, porque, com o tempo, o néon desaparece, escapa, só se renovando com novos olhares luminescentes e coloridos. Também há a opção do néon-branco, cuja luz apaga as letras pra sempre, nivelando o fundo branco das páginas com a manchas escuras das letras. Este é o leitor-suicida. Mas deixemos tal revelação e detalhes para outro momento.
A leitura-néon é a presença do leitor do futuro-futuro. Desejamos que o leitor até lá não morra, ou não morra além do permitido, da morte tolerável pelo texto, por sua vez, já tão premente de energia.
pós-escrito: A leitura-néon não é permitida apenas ao olhar. Também o néon é sensível à voz. Basta o leitor ler em voz alta que o néon também atravessa energeticamente as letras. No entanto, indicamos livros fonofotossensíveis para que a intensidade da luz surja alta mesmo diante de vozes mais puras, finas ou meigas.
20 março 2010
ondas esvoaçantes
Quando contemplo, escrevo. Quando penso, escrevo. Quando falo, escrevo. Quando escrevo - se conseguir - traduzo. E se traduzo, é porque amo. Amo sem dó nem piedade a antiescritura (a anti-mancha), pois, quando penso, escrevo. A escrita é uma dignidade piedosa. Uma compaixão digna. A antiescritura, uma escrita libertada - mas finita. O desejo da escrita é uma ilusão do infinito. Não obstante, há sempre uma mácula a nos transitar, porque, sem desejo-de, não se pode ser.
E a Terra, o Sol, o sistema solar, a galáxia, os buracos profundos, as nebulosas? O que é a visão escritural quando a escuridão não alcança a escuridão?
13 março 2010
O homem mais et cetera do mundo
Certa noite, um homem preto, pobre, desempregado e de um bairro distante, mas bem vestido, resolveu alguma coisa. Pegou uma barca velha e se jogou no mar. A barca não o levava pra sua casa. A barca levava pro sentido inverso da sua casa. Era o que ele queria. Um sentido inverso pra sua vida. Alguém até disse, depois que aconteceu o que vai acontecer: "É um homem torto, nem sabe tomar o rumo de casa direito!".
"Homem ao mar!", disseram, repetiram oficialmente. Alguns passageiros se jogaram pra tentar ajudar. Outros da tripulação também se viram na obrigação de se jogarem no mar pra salvar o homem. Vestiram umas boias redondas feito uns palhaços e se jogaram sobre o picadeiro gelado do mar. O homem não deixava se salvar, mergulhava pra se esconder e, quando os outros, os salvadores, achegavam pra salvá-lo, o desertor tentava afogar os salva-vidas sem piedade. Então, alguém conseguiu dar uma gravata em forma de pirueta no maluco, puxaram-no pra margem e o salvaram. Chegou a polícia e a imprensa com uns jornalistas portando umas gargantas imensas. Todos se perguntaram o que fariam com aquele homem preto, pobre, desempregado e ainda por cima morando longe, embora bem vestido. Alguém de trás, na multidão, deu a ideia de mandá-lo pra casa. Foi assim: "Mande esse traste pra casa!", disse o fundão da multidão. E olha que o homem sem nome nem tinha roubado ninguém e, até quando ele pulara da janela, disseram os passageiros, fez questão de pular com uns óculos escuros bem bacanas e com uma mochila que parecia um paraquedas.
Quando deu meia-noite, ele voltou pra casa. Foi de ônibus mesmo, porque era sexta-feira, os policiais precisavam tomar uma cerveja e os jornalistas deveriam voltar à redação pra aumentar a história. Deram uma passagem pra ele. Voltou encharcado pra casa. A casa mesma. Quando chegou, encontrou a mulher morta de vergonha. Mas, quando ela viu os olhos de seu marido marejados, como que perdidos feito uma planta aquática em meio a um mar revolto, entendeu que a alma dele já não estava mais ali. Algo daquele homem tinha ficado no salto, pra logo mergulhar em meio a espumas que semimisturavam à hélice da barca, que, velha como convinha, transpirava.
11 março 2010
24 fevereiro 2010
companhia
a Vida é esplendor
com algumas vertigens;
com o Trabalho, uma necessidade;
sem Deus, um anjo caído
com liberdade.
04 fevereiro 2010
lembrando Heinrich Heine (1797-1856)
Os censores chineses - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - parvos - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - .
26 janeiro 2010
albatroz
Albatrozes voam dentro de mim
nada posso senão acompanhá-los
- eis o vento do poeta -
encontro com a imensidão.
25 janeiro 2010
porto ao príncipe negro

“Os mortos estão mortos, nós sabemos disso. Mas se você não tem a memória do passado, o restante de nós não pode continuar vivendo."
Um negro voltado para o firmamento sopra uma concha, encimada, levemente oblíqua, pela mão esquerda. Ares de liberdade? Grito de guerra? Ressonância da paz? Abertas as pernas, como uma dança ritualística, com a direita dobrada à frente, e a esquerda esticada para trás, ele arqueia valentemente até o chão, segurando uma pedra com a mão direita. Firme, quebra com ela o elo da escravidão. Firme, não olha para o que se parte, guerreiro a se mover para o alto e não pra terra vã. Mas é a sua terra a conquistada. A terra que lhe permite viver mesmo quando a terra treme. Mas é a sua terra. E ele a confirma para seu povo com o sopro na concha. Diante do palácio branco. Da barbárie que o tempo não calou, a despeito do palácio branco.
Agora o palácio está em ruínas. A terra tremeu pelos homens. Porém o negro firme está, e ainda sopra a memória.
21 janeiro 2010
posto de observação
Na janela, vejo uma lagarta. Nos últimos três dias, ela comeu cinco folhas de um galho que avança pro muro do prédio próximo à janela. Ele come e caga pedaços redondos e pretos que caem no corredor do prédio e mancham feito a jabuticaba quando estoura no chão. No dia seguinte, a lagarta sumiu. Sonhava vê-la borboleta, mas foi só um sonho. Ela só queria comer e pronto. Quando se saciou, ou a folha ficou enjoada, ela sumiu. Quem sabe foi comida por algum pássaro, por algum gato, ou sugado pela própria natureza ou pela escuridão da noite.
(Olha, na verdade, penso que não existe a escuridão da noite. Nesses dias, uma senhora minha vizinha faleceu de madrugada. O apartamento ficou vazio na noite seguinte. Veio a escuridão da noite. Abri a porta do corredor. Olhei pra porta dela. Mas nada aconteceu. Portanto, não existe a escuridão da noite. No entanto, a sucção da natureza existe.)
Tinha esperança naquela lagarta, mas ela só queria comer o que queria comer. Algumas lagartas não se engajam com o tempo e o destino. Tudo que elas querem na vida é comer e cagar pra manchar a passagem dos outros. Era melhor então que tivesse caído jabuticaba em vez dessas bolinhas pretas que não servem pra nada. A lagarta surgiu do nada e sumiu do nada. Não poucas vezes é isto que também acomete aos homens. Pra lagarta é melhor, porque ela não é moralizada. Quero ver se a lagarta fosse moralizada. Ela voltaria àquele mesmo galho, àquelas mesmas folhas e insistiria naquela repetição. Mas não, a lagarta sabe que mudar de ares é fundamental. Embora lenta, a lagarta não conhece o tédio.
O galho faz parte duma goiabeira. A goiabeira recebe muitos pássaros, um deles de azul brilhante quase cinza que, sempre acompanhado de outros da mesma espécie, furam as goiabas fartas neste verão. Foi neste verão que as goiabas apareceram. Mas quem se importa, aqui, com as estações do ano? As goiabas surgiram. E fora do alcance da janela.
Já por duas vezes, vi um gato preto e solitário na copa da goiabeira rastreando o entorno e vendo se dava pra fazer algo. Esse gato é o mesmo que vejo miando ao lado de meu portão. Ele, sempre que pode, na verdade, sempre que necessário, chafurda o lixo que eu e meus vizinhos jogamos no final da noite. O gato, na copa da árvore, se aninha num galho alto e espera. Ele me olha a contragosto. Eu não deveria estar ali, porque ele sabe que observada a coisa fica mais ridícula. O gato ficava por um tempo por lá, se excitava de vez em quando numa revoada de pássaros, mas depois desistia. Como se sabe, gato não voa.
O dia passou.
01 janeiro 2010
Assinar:
Comentários (Atom)
