03 dezembro 2009

Profissão de fé

Era um banco. Com ar-condicionado bom. As pessoas conversavam esperando a fila andar. Entre as pilastras, um grande segurança-pilastra. De repente, de repente. Ele se mexe todo, leva a sua mão até o bolso da esquerda e retira algo. Prepara os seu lábios, molhando os inferiores e os superiores. E passa delicadamente o protetor. Esquerda, direita, esquerda direita. Dobra os lábios finalmente pra acertar e ver se tá brilhoso. Sem mais, retorna o objeto pra calça. Olha em volta. Acerta o corpo entre as pilastras. Para sério e concentrado, apenas regulando os olhos em volta, como um lagarto. Pois é o seu ofício.

Natal feliz


- Não, mamãe! Ele é mau!


Segurando a mãe pelas mãos, arrastando-a, chorando, freando com a ponta do sapato qualquer movimento, uma criança se assusta ao ver um papai Noel se aproximando no hipermercado.

Finalmente ele se solta, porque a mãe ameaça:

- Não, meu filho, vem cá, ele é bonzinho. Olha aqui a barba dele. Faz carinho na barba. Aqui ó!

11 novembro 2009

Blecaute, mon amour!

Criado na centelha, o pavio queima veloz. A bravia parafina se derrete por inteira feroz. A vela acaba. Mais uma vela! - Olha o vento... Um círio desta vez! Algo vai bem mal quando o círio do apagão acaba. Tatibitati: no dia seguinte, o que derrete primeiro, uma vela, um círio ou o Governo?

02 novembro 2009

Poesia babélica

Para quem gosta de poesia, gostaria de indicar um ótimo site, que, pasmem, já existe há dez anos, aliás, recém-completados (1999-2009). Chama-se lyrikline.org, e é um projeto vindo da Alemanha. É um site que reúne poesias em várias línguas, com suas respectivas leituras em áudio. Até aí nada de mais. O que o diferencia é o fato de os poemas serem lidos por seus próprios autores, além da diversidade dos idiomas acolhidos pelo site. Até a data deste texto, pude contar 51 diferentes idiomas, sendo que o número pode aumentar, pois o que diferencia o site é fato de estar aberto a entradas de novos poetas e idiomas. Pelo o que pude ler, há uma avaliação dos poemas, a fim de que não entre 'qualquer coisa', mas poemas que realmente possam representar contemporaneamente dado idioma. É claro que a disponibilidade do poeta para ler os seus próprios poemas também conta. O site possui a tradução de várias poesias para outros idiomas, sobretudo para o alemão. Para além do fato de o projeto do site ser da Alemanha, é surpreendente como a maioria dos poemas é traduzido para o idioma deste país. Também podemos encontrar no site áudio e texto de alguns poetas já falecidos como , por exemplo, William Butler Yeats, Hermann Hesse (que também escreveu poesias), Paul Celan e Bertolt Brecht. No caso do português, é delicioso poder ouvir, além de alguns de nossos poetas contemporâneos (Paulo Henriques Britto, Marco Lucchesi etc), aqueles de Portugal e dos países africanos de fala portuguesa. Vide, por exemplo, os temas belíssimos que são desenvolvidos por poetas de Moçambique, Angola, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.
O site também é uma boa porta de entrada para aqueles que precisam aprimorar ou aprender idiomas, e até mesmo para os que apenas possuem a curiosidade - muito válida no caso de poesia - de poder ouvir textos poéticos em outros línguas. Digo isto porque, até mesmo não entendendo a língua, a audição de um poema por seu próprio autor é marcante. Não só para perceber a maneira como cada um declama as suas palavras, uns mais vagarosamente, outros de forma cantada ou impostada, mas para compreender com profundidade como a poesia está cativada em sua essência pelo ritmo e pela musicalidade das palavras. Talvez por isto é possível responder por que tantos poetas aceitaram ler e gravar seus poemas, aceitando divulgar as suas produções poéticas em proximidade com o áudio. Há uma intuição de que a presença do som em sua materialidade declamada enriqueça ainda mais o poema. Ao mesmo tempo, penso que tal decisão de disponibilizar a própria voz para os próprios poemas não deva ser tão fácil para os poetas. Ao se ler e gravar de uma dada maneira um poema, sobretudo quando este leitor é o próprio autor, retira-se um pouco a natureza aberta tão característica da poesia, no que tange à leitura em voz alta pessoal que cada leitor poderia oferecer ao poema.
No mais, o site é uma experiência única. Cada navegante poderá escolher os seus poemas por autor, em ordem alfabética, ou por língua. Ademais, ainda encontrará a biografia, as publicações e os prêmios recebidos por cada autor. Sem dúvida, considero o lyrikline um dos sites mais relevantes criados nos últimos anos para a divulgação e a defesa da poesia. É um site que prova que os homens podem se encontrar sim. E este encontro tem a sua porta aberta pela poesia. Acima de tudo pela voz poética, que, mesmo incompreensível idiomaticamente, possui uma força compreensiva, ou seja, uma positividade compreensiva. Algo como: não entendi nada, no entanto, compreendi.
O endereço é o seguinte: http://www.lyrikline.org

Passagem IV entre cotovelos

[Os oprimidos dormem, os revoltados também; o mundo está enterrado, a história retoma fôlego. Resta, numa bolha de luz rodeada pelo nada, essa elite que vela, totalmente ocupada com as suas cerimônias. Se, entre os seus membros, existem intrigas, amores e ódios, não ficamos sabendo e, aliás, os desejos e as cóleras emudeceram: esses homens e mulheres estão ocupados em conservar a sua cultura e as suas boas maneiras, e em se reconhecer pelos ritos da cortesia.]

(Jean-Paul Sartre, Que é a literatura?, São Paulo: Ática, 1989 [Qu'est-ce que la littérature?, 1948], pág. 106).

23 outubro 2009

horizonte sensível


Ave,

homem
deste a voar
arvoar alto-mar
ribombar a nuvens de distância
derribando as estrelas
ave, homem-oceano
de encontro à terra
das ondas.

21 outubro 2009

Autorretrato

MELENCOLIA ILLA HEROICA


o cão, dentro
da esfera,
encontra a pedra;
o que fará
demovê-la
senão a melancolia
alada?

23 setembro 2009

Passagem III: a leitura

"O leitor é quem está escrevendo o livro. Ler é um ato criativo. E há poucas pessoas que sabem ler. Ler não é um ato passivo como quando a gente vê novela. Os livros que eu gosto de ler são os livros que exigem muito de mim. Daí eu estou a pensar se os livros em vez de ter o nome do escritor, deviam ter o nome do leitor na capa. Ele é quem de fato escreve o livro. Quem começa a ler um livro bom sempre descobre coisas acerca de si mesmo. Livros extraordinariamente simples são os mais complexos."
(António Lobo Antunes, em Revista Língua Portuguesa, ano 4, n. 47, setembro de 2009, p. 14)

03 setembro 2009

Lá vem o pato...

No telefone.
- Vó?!
- Sim, J.
- Aconteceu uma coisa estranha...
- O quê?
- Lembra do Hamleto?
- O Patinho de estimação do Jr.?
- Isso!
- O que aconteceu?
- Claudius Jr. afogou ele no vaso.

23 agosto 2009

Protossaber

As letras hebraicas são notas musicais quadráticas, pontuadas para não fenecerem as vogais.

Toda língua que não sabemos - mas que gostaríamos de saber -, torna-se objeto de todos os nossos sentidos, interligados loucamente a fim de que possamos compreender um pouco de uma materialidade inicialmente ininteligível. São as primeiras afinidades eletivas linguísticas. É o protossaber de uma nova língua que desejamos antes de sua realidade comunicável e visível por meio da razão. Em suma, as línguas surgem primeiro na imaginação sonhadora. São sonhadas antes de que os fatos linguísticos nos induzam à vigília do saber.


A frase árabe estende-se como linha sinuosa, pontual e sensual.

07 agosto 2009

Biblioteca Brasiliana

A doação da biblioteca de obras brasileiras de José Mindlin à Universidade de São Paulo, bem como a sua digitalização, é mais um marco digno de crédito à internet por parte de alunos e pesquisadores que necessitam de fontes seguras para suas pesquisas de curto ou longo prazo. Estamos chegando a um momento que já podemos confiar, pela alta qualidade técnica e pelo trabalho rigoroso, de alguns sites da web referentes a várias ciências. Mesmo a área de Literatura, que acreditávamos que fosse uma Arte que a internet não daria conta, já possui a sua parcela de alta qualidade na rede. Hoje é possível baixar livros com segurança e sem erros, além de termos acesso a suas imagens originais. Temos com isto o acesso a obras importantíssimas e raras às quais só conseguiríamos ter com uma trabalhosa pesquisa em bibliotecas físicas. A biblioteca Brasiliana, com os aupícios da USP e, sobretudo, consequência da paixão vital de um brasileiro pelos livros, é um grande exemplo do novo patamar que a internet vem atingindo. Oxalá possamos um dia também respeitar a nossa língua no modo como nos expressamos na internet da mesma maneira que, cuidadosamente, os livros de Mindlin vem sendo escaneados - por um robô chamado Maria Bonita - e colocados à disposição do público.
O site da Biblioteca Brasiliana é: www.brasiliana.usp.br

06 agosto 2009

De perfil

Deixa eu contar. Um dia encontrei um cão. Ele dormia enquanto um temporal riscava a rua à sua frente. O vento rajava. Ele se encolhia igual aquela minhoca sobre si mesma que encontramos no jardim botânico e que, estandando sem casa, resolvera dormir no rosário - dentro duma rosa. Aquele cão era despreocupado. Despretensioso. Com seu pelo, suas patas, seus caninos, seu rabo vulgares. Não se igualava àquelas cocotes que encontrávamos todo dia pelo manhã na praia aos domingos segurando cadelas que pareciam ter levado um susto. Ele era cão e nada mais. Nada mais podia partir de seus olhos que a concretude da vida. Se aquele cão fosse triste, ele seria triste e pronto. Pronto pra morrer, salvar sua vida ou viajar de barca na proa com o vento refrescando o seu pelo em liberdade. Nada, quase nada, rasgaria o seu ser. Porque o cão não se iludia. O arrepio de seus pelos é o despertar de cada instante. Como o da chuva derramada ao lado dele. Desse cão, te digo: ele era inaudível. Mas havia um globo de luz que lhe assistia e o desvelava na rua. Aquele cão era cão. Mas poderia ser um coração brega abandonado.

05 agosto 2009

Tríptico dos infernos

Como adendo à postagem anterior, cito três pontos contra os quais devemos lutar, a fim de termos uma Universidade mais saudável e possível - que valha a pena - como experiência. Portanto, são três as pragas que mancham a nossa Universidade. Elas roem cada vez mais o funcionamento desta. Roem as almas dos estudantes. Essa tríplice aliança pode ser encontrada sugerida no belíssimo ensaio "A vida dos estudantes" (1915), de Walter Benjamin. Ei-las:

1. Predomínio da informação sobre a formação;

2. Predomínio do ensino utilitário sobre a busca da totalidade do ser;

3. Predomínio da rotina burocrática sobre o espírito de pesquisa.

29 julho 2009

A Universidade interrompida no desejo

Algo acontece com a Universidade, ou melhor, vem acontecendo faz tempo. Há duas coisas que podem acontecer à Universidade. Como uma flor, ela pode ser deixada de lado e florescer. O contrário seria ser deixada de lado, como uma pera na fruteira, e, como é sabido, amadurecer e, destino, apodrecer. Temo que o que ocorre hoje com a Universidade - sobretudo nas graduações - é o segundo caso. E, alarme de incêndio: o apodrecimento é lento, gradual e não tem retorno, embora com a esperança que as ações humanas - vá lá, algumas delas - sempre possuem uma segunda chance.
Os professores estão cada vez mais esclerosados. Poucos de fato se salvam e são objetos de nossas boas lembranças. A maioria é burocrática. Não se preocupam se os alunos aprenderam ou não algo. Apenas querem vomitar o seu conteúdo (muitas vezes inútil), dar a sua aula e ir para casa, crente de que fizeram a sua parte. Os professores não ousam. Não trazem textos e autores fundamentais para as humanidades (uma colega de classe, com quase 19 anos, me confidenciou que jamais havia ouvido falar em Nietzsche!), seja por preguiça, seja por desconhecerem o que realmente importa. As aulas acabam sendo um sacrifício, pois sempre fica a sensação de que poderia se fazer coisa melhor em casa - por parte do aluno - no silêncio do quarto e do auto-didatismo. O que temos, portanto, é algo grave. Grave porque a Universidade sempre foi, ao mesmo tempo que o lugar do rigor do pensamento, o lugar ao qual desejamos ir para nos transformar. Para encontrar algo a mais que a repetição do dia a dia e a extrema superficialidade que cada vez mais assola a sociedade. O desejo está acabando para a Universidade. Desejo de algo grande, da vontade de ascender a um alto patamar de crítica, de pensamento, de humanidade. E nisto, os alunos também tomam parte. Quem são os nossos alunos hoje? Os que não estão apaixonados. Os que buscam suas notas e suas palestras que somente vão preencher os seus currículos e não os modificar. Os alunos que esperam da Universidade apenas a sua catapulta que os lançarão para o seu trabalho repetitivo, que, desesperados, vão necessitar para sobreviver. Onde estão os alunos verdadeiramente escritores, leitores, pensadores, questionadores das suas existências e de sua sociedade? Que, mesmo nos seus silêncios - que muitas vezes é o silêncio da pobreza material - nunca desistirão de algo sempre maior? E, do outro lado, o que fazem esses professores? Estão perdidos? São apenas mais uns espertos? Ou nunca foram o que dizem que são? Onde está o meu professor? Onde está o meu companheiro pensador?
O que estamos fazendo com tudo que criamos? Tudo que depende profundamente da gente para permanecer e que, cada vez mais, é apenas substância vulgar de uma prova que temos que preencher?
Uma estorinha: em frente à Faculdade Letras havia um grande Dom Quixote de lata. Um dia houve uma choppada. Alguém subiu no Dom Quixote e o derrubou. No dia seguinte, o Dom Quixote desapareceu. No canto, próximo à porta do elevador, ele jazia, sem a sua base.
Um verdadeiro, um lúcido e potencial humanista, jamais derrubaria um Dom Quixote. A deslealdade é um dos primeiros sinais da queda do indivíduo.

24 julho 2009

Noturnos

A noite já invadia e apressou os seus passos para não tornar sua respiração tão noturna. Na praia, ao longo de seu enlace com as ondas, as nuvens estavam lindas escuras e misturadas com o crepúsculo enfraquecido pelo intenso arrepio do mar. Pescavam homens e, após iscas e iscas lançadas, anoiteceu. Elas mergulhavam à beira mar presas a lanternas coloridas. As vermelhas saltavam e caíam sobre a superfície do mar secamente, feito um raio de luz rasgando a escuridão. As castanheiras ondificavam a luz do caminho. Os seus olhos, as suas pupilas varavam a superfície da água num zummm. Gatos perscrutavam o seu caminho de volta para casa. E quando chegou, a lua já se impunha a nado. Abriu a porta. Olhou o sofá caído em luz. Uma mulher estava lá. Não a reconheceu. Um pano negro cobria o seu rosto. No quarto, abriu uma caixa de veludo. Dentro havia uma lua eclipsada. Nuvens vagavam pelo corredor. Sorriu brevemente. E se abraçou, sentindo-se sonhar.


*****

Olhou para o céu. Estranhou as estrelas. Estranho descontentamento era aquele de assistir ao espetáculo daqueles astros mas não poder tocá-los. Que estranhamento! Não conseguia entender por que estavam tão longe e, principalmente, por que já estavam mortas de forma tão luminosa e intensa. Ao caminhar pelas ruas que rodeavam-no, assistiu às estrelas aparecerem e desaparecerem num piscar de olhos. Eis que as nuvens acabaram tomando a noite, fazendo o estranho estrelar arrefecer. Podia agora sustentar os próprios passos sem mais se sentir indeterminado, posto que acima dele, há alguns minutos, houvera algo de inalcançável à existência. Sentia agora o ritmo do coração bater sem turbulência. Naquele instante, o limiar da porta de madeira compensava o limite intransponível das estrelas. Como era simples e agradável a lua imprecisa entre nuvens e as estrelas desaparecidas. Mas a respiração, anuviada, ofegava.

27 junho 2009

Pelo coração

I
Envelhecemos e, pela aparência, nos sentimos tristes muitas vezes. Mas, ao reconhecermos a velhice em quem amamos, nos regozijamos. Há um estranho prazer, algo da ordem do pleno, em envelhecer com a pessoa amada.

II
Quem ama, seja de que forma for, pode temer a morte não a partir de si mesmo. É o outro a quem amamos que nos fará, alguma vez na vida, temer a morte. É pelo inerente fim do outro que nos completa que tememos o nosso fim.

III
Isto talvez pudesse também ser estendido à Humanidade. Se amamos a Humanidade e esta chafurda muitas vezes em seu fim, é bem cabível que, quem ainda possui a capacidade de amar a Humanidade, possa temer a si mesmo com o seu próprio fim antes do tempo.

19 junho 2009

Transfiguração do você

Vossa mercê:
vosmecê:
vossuncê:
vancê:
você:
ocê:
cê:
vc:
c:
.:
quem-o-quê?

15 junho 2009

Função dêitica

Acolá aloca-acolá
lá cá: lá, lá, lá, lá
aqui et ali: Ali!
cá, cá, cá, cá
onde?
aqui-cá-aiaiaiaíííí
no meu peito.

06 junho 2009

Leitor?, pode passar!

Pois sim. Nunca precisamos tanto de leitores em vez de escritores como no agora. De fato, sempre necessitamos de leitores. Sem leitores não há escritores, poderíamos dizer. Mas o que acontece hoje não é bem isto. Todo mundo escreve, mas poucos verdadeiramente leem. Um exemplo são os jornalistas. É difícil acreditar que um jornalista, com a jornada de trabalho que tem, consiga tempo para ler. Suponho que acorde pensando em escrever, para fechar as suas inúmeras pautas, mas dificilmente acorda pensando em ler algum texto, livro ou poema importantes.
Mergulhados num mundo de choques e emergências, estamos perdendo os nossos leitores - com sacrifício, podemos acrescentar os releitores, ou seja, aqueles que conseguem reler o que já leram. Pois a leitura pede solidão e mergulho. E a nossa sociedade, louca de consumo e banalidades, não nos convida à solidão.
Gostaria de acreditar que a leitura é uma grande diversão. Para mim é também, porque a gente se acostuma. Mas a leitura literária, filosófica ou poética - ou aqueles textos que possuem elementos literários, filosóficos e poéticos - requer esforço, dedicação e paciência. Acreditando, pode-se até se sair melhor destas leituras - e mais perturbado, sem dúvida - mas para entrar nestas leituras está cada vez mais difícil. Nunca fomos tão perturbados em nossas leituras como hoje. Neste mundo que quase pede para você não ler mais, a fim de que fique vagando pela temporalidade infernal do presente.
No começo disse que precisamos de leitores "em vez de", "no lugar de" escritores. Mas não disse "ao invés de", "ao contrário de" escritores. Porque o leitor não é o contrário do escritor. O leitor é a sombra do escritor. O leitor é o silêncio da escrita. É a potência daquele que poderá escrever. No momento, é a potência que precisamos. Um inequívoco leitor se revela de primeira na fala, no diálogo, raras vezes na escrita. E um escritor é um parlador antes de ser um chocador de ideias e palavras.
A escrita pede silêncio. O silêncio do amor. Eis o leitor, uma espécie cada vez mais rara da ponderação improdutiva chamada leitura. Sem o leitor, nenhuma escrita se desvela. Sem um verdadeiro leitor, a escrita não se estabelece, pois ela fica sem densidade, sem brilho de um leitor que escreve porque leu...o mundo, poderíamos subir mais um degrau, para não pensarem só numa leitura física. Porque só um leitor, nas suas múltiplas possibilidades, deve, ou não, escrever.

15 maio 2009

Vagamundo

Quando nos tornamos um estrangeiro em nossas próprias casas, reconhecemos o lado escuro da solidão. Tudo mudou? Certo que o que mudou profundamente foi dentro de nós. Já não somos os mesmos. Nunca somos os mesmos para além de um dia. Não é possível voltar para trás.
Somos uma metamorfose, nós, um certo tipo de nós, que na realidade somos todos: filhos do tempo. Somos um grito - este grito não ensaiado da vida. O silêncio não nos cala. Revoltos, somos. Revoltos, seremos. O silêncio apenas aponta. Mas o que desponta é o urro silencioso do grito primordial.
Rastejamos sem luz sobre o nosso próprio ventre.
o beijo perfuma os gritos solitários.

10 maio 2009

Jornada

- Me sinto estranho, me dizia numa noite apenas noite. - Não consigo tomar consciência da vida sem sustos. Hoje, ao ficar cercado duas horas por um engarrafamento, não conseguiu se viver sem medo, pânico, susto. Não se via numa comédia humana, como deveria ter se visto, de preferência com músculos brandos. Seus músculos, não, nem estavam brandos. Em pé, ônibus sustentando-o, seus músculos estavam tesos. Sua alma sofria, pois enxergava aquilo, com olhos de menino do campo, como uma loucura humana. Aquelas dezenas de carros, ônibus e caminhões com suas buzinas periclitantes eram uma violência a qualquer tempo humano; dizia, a um verdadeiro e digno tempo humano. Ora, monologava, - vim pra cá, já sustento a minha existência e ainda tenho que aguentar seco essa decadência sórdida da humanidade. Minha alma não é branda. Ela seria vulgar se fosse branda num engarrafamento suspenso sobre um viaduto, donde a vista era um lado buzinas e faróis gritando e do outro um cemitério só desejando o grande silêncio.
Tão patética e perpétua vista não desejava para os seus amigos passageiros. Mas que amigos? Que passageiros? Eles apenas dormiam, seus corpos foram cansados e vituperados pelo longo dia. Seus olhos de quando em quando se abriam como os faróis vermelhos dos freios dos carros. Stop! seus olhos abriam. Seguiam. Stop! seus olhos abriam. E seguiam. Seus cabelos chamuscados pelos ventos do mar sobressaltavam sobre os arreios do ônibus. E na grande ponte que atravessavam, a seguir pra casa, sonhavam, só sonhavam, meu deus, não é possível, aquela realidade só podia muito lhes convir para ainda sonharem já tão no fim daquela prostituta jornada humana.

18 abril 2009

Bovary para todos

Um breve texto do jornal La Vanguardia nos informa algo bastante precioso para os estudiosos de Literatura. As 4.500 folhas que compõem os manuscritos do romance Madame Bovary, de Gustave Flaubert, estão disponíveis agora na internet. Segundo o jornal, estima-se que 600 pessoas tenham participado de todo o projeto. Ele surgiu da colaboração entre a Universidade de Rouen - cidade natal do autor - e a Biblioteca Municipal da mesma localidade. Portanto, impressionantemente, este projeto teve iniciativa local. Mas a sua realização nem tanto. As transcrições foram feitas por 160 vonluntários, com idades entre 16 e 76 anos. E se você pensa que este trabalho foi feito apenas por franceses está muito enganado. Os voluntários provêm de 17 países, entre eles Argentina, Colômbia, França(!), Gana, Itália, Japão, Portugal e Tailândia. Os trabalhos foram realizados entre março de 2003 e setembro de 2005. Os dados digitalizados estão disponíveis em www.bovary.fr
Não deixe de explorar bem este site. É um trabalho de crítica textual impressionante, com os manuscritos originais dispostos ao lado das transcrições. É possível acompanhar os manuscritos desde os rascunhos de Flaubert, passando pelos manuscritos definitivos, os manuscritos do copista até o texto publicado. Há também informações sobre o autor e a gênese deste romance tão importante que levou cerca de cinco anos para ser finalizado por Flaubert.

04 abril 2009

caixa musical

fósforo no ar
ilusão dos corpos
helenismo estéril e sem pensamento
atração reversa.

nu, nus, translúcido nu
olhares deshorizontados
espelhos que dançam
esferas no alto que gozam a madrugada truncada.

impressão inexata do delírio vital
beijo-espiral
magro espírito
pés-em-transe.

distúrbio do fosforejar
brilhos dos olhos flamejantes
arrastão de palavras
na tridente noite:
dente dos corpos
dente gozante
dente-sudário
destila a grande fonte.

a noite tomba
um a um dispersivos
com a névoa amada pelos lábios veludosos
as margens dos rios
correm entrepeles
ungem os corpos:
eis a prontidão da aurora ridente.

28 março 2009

Passagem II: filosofia

Diz Marilena Chaui - buscando um sentido à Filosofia num modo de dizer filosófico - em entrevista à revista CULT de março de 2009:

Certa vez, perguntaram a um filósofo: para que filosofia? Ele respondeu: para não darmos nosso assentimento às coisas sem maiores considerações. Ou seja, a atitude filosófica se inicia quando desconfiamos da veracidade ou do valor de nossas crenças cotidianas, desconfiança que surge, sobretudo, no momento em que nossas crenças, nossas ideias, nossos valores parecem contradizer-se uns aos outros. A filosofia é uma interrogação sobre o sentido e o valor do conhecimento e da ação, uma atitude crítica com relação ao que nos é dado imediatamente em nossa vida cotidiana, um trabalho do pensamento para pensar-se a si mesmo e da ação para compreender-se a si mesma.

23 março 2009

estela

Às 4.30 da manhã, escalou os degraus da escada espiral. Lá se assustou com um livro aberto. Um livro ainda abre? As duas páginas aparentes jaziam escuras, cobertas pelo pó do tempo. Seus dedos roçaram sobre uma delas e, agudas, as letras foram surgindo e formavam, tácitas, a seguinte passagem:

O que me interessa nesse momento é fugir à engrenagem, saber se o inevitável pode ter uma saída.

Encontradas, essas palavras não precipitaram o seu olhar petrificado, eterno e feliz.

08 março 2009

passagem I

Ou a obediência estúpida ou a revolta. [Mundo, em "Cinzas do Norte", de Milton Hatoum]

16 fevereiro 2009

Sambalêlê

invade a festa profana
para a burguesia ipanemense passar
joga fora seus corpos condicionados
nas vitrines-apartamento
Burguesia,
vem brincar!

aqui na linha tênue da rua
aqui na pontinha
com seus corpos um só modelo
tão modelos que já podem ser vendidos
for sale & samba.

vem burguesia
aqui na sarjeta
onde a água passa
e o esgoto fica
mesmo com seu ouro e sua prataria
mesmo com a Arte de seus dólares
mesmo com os celulares colados a New York, Paris and London
requebra-requebra, burguesia,
no ventinho do mar azul
vem...

no limiar da loucura carnavalesca
alô alô bourgeoisie de Ipanema
aladas faces branquinhas e rosáceas
deixa as meninas aí
e vem...

deixa as bordadeiras

de seus aquários gigantes
com seus vestidinhos cinza-azuis
saracotearem nas janelas;
deixa as novas donas aí
de camarote dançar o samba.

ô Ipanema dos burgueses
vem com Eros que ele lhe dá samba
sambalêlê, ó Ipanema, sambalêlê.

01 fevereiro 2009

Ofélia in blues

Há os que mergulham fundo e se perdem. Há os que mergulham mas se isolam do fundo. Há os que mergulham e se isolam no fundo. Há os que estão mergulhados e não sabem. Há os que boiam e fingem mergulhar. Há os que estão às margens, dedo em riste, para não perder o senso do ar que respiram. Há os que estão mergulhados e sabem, sabem, sabem. Das bolhas que surgem à sua volta, esperam a salvação que não virá. Há os que ainda estão pensando se devem ou não mergulhar. Se devem temer ou não as ondas, a água gélida, as correntes marítimas e a salinização final dos oceanos. Estes ainda esperam. Mas em breve, há de as marés levantarem os seus pés inauditos. Mergulhados, logo seremos. Serenos e mergulhados.

25 janeiro 2009

A Grande Noite


As coisas são vazias
os livros são vazios
- sem carne, sem alma, sem saltos -



esperam por nós, desavisados,
- com carne, com alma, com abismos -
 

os livros, natos,
ao menos uma vez na vida
esperam pela grande noite
de um leitor distraído...


a noite diante do vazio,
a noite em que foram escritos.

17 janeiro 2009

Anunciação de Gaza

terra santa
Santa Guerra
a Guerra é longa
a Vida, breve.

Breve é o instante
que pedras são lançadas
e-q-u-i-d-i-s-t-a-n-t-e-s
dos mísseis desvairados.

Gaza vaza miséria
que nem a Eritreia
Revela.

santa terra
da Guerra
Seu sudário
rasga sem Amor;
resfestela-se címbalos de rancor,
é o que resta
desta Festa macabra da Dor.