03 dezembro 2009
Profissão de fé
Natal feliz
- Não, mamãe! Ele é mau!
Finalmente ele se solta, porque a mãe ameaça:
- Não, meu filho, vem cá, ele é bonzinho. Olha aqui a barba dele. Faz carinho na barba. Aqui ó!
11 novembro 2009
Blecaute, mon amour!
02 novembro 2009
Poesia babélica
O site também é uma boa porta de entrada para aqueles que precisam aprimorar ou aprender idiomas, e até mesmo para os que apenas possuem a curiosidade - muito válida no caso de poesia - de poder ouvir textos poéticos em outros línguas. Digo isto porque, até mesmo não entendendo a língua, a audição de um poema por seu próprio autor é marcante. Não só para perceber a maneira como cada um declama as suas palavras, uns mais vagarosamente, outros de forma cantada ou impostada, mas para compreender com profundidade como a poesia está cativada em sua essência pelo ritmo e pela musicalidade das palavras. Talvez por isto é possível responder por que tantos poetas aceitaram ler e gravar seus poemas, aceitando divulgar as suas produções poéticas em proximidade com o áudio. Há uma intuição de que a presença do som em sua materialidade declamada enriqueça ainda mais o poema. Ao mesmo tempo, penso que tal decisão de disponibilizar a própria voz para os próprios poemas não deva ser tão fácil para os poetas. Ao se ler e gravar de uma dada maneira um poema, sobretudo quando este leitor é o próprio autor, retira-se um pouco a natureza aberta tão característica da poesia, no que tange à leitura em voz alta pessoal que cada leitor poderia oferecer ao poema.
No mais, o site é uma experiência única. Cada navegante poderá escolher os seus poemas por autor, em ordem alfabética, ou por língua. Ademais, ainda encontrará a biografia, as publicações e os prêmios recebidos por cada autor. Sem dúvida, considero o lyrikline um dos sites mais relevantes criados nos últimos anos para a divulgação e a defesa da poesia. É um site que prova que os homens podem se encontrar sim. E este encontro tem a sua porta aberta pela poesia. Acima de tudo pela voz poética, que, mesmo incompreensível idiomaticamente, possui uma força compreensiva, ou seja, uma positividade compreensiva. Algo como: não entendi nada, no entanto, compreendi.
O endereço é o seguinte: http://www.lyrikline.org
Passagem IV entre cotovelos
(Jean-Paul Sartre, Que é a literatura?, São Paulo: Ática, 1989 [Qu'est-ce que la littérature?, 1948], pág. 106).
23 outubro 2009
horizonte sensível
Ave,
homem
deste a voar
arvoar alto-mar
ribombar a nuvens de distância
derribando as estrelas
ave, homem-oceano
de encontro à terra
das ondas.
21 outubro 2009
Autorretrato
o cão, dentro
da esfera,
encontra a pedra;
o que fará
demovê-la
senão a melancolia
alada?
23 setembro 2009
Passagem III: a leitura
(António Lobo Antunes, em Revista Língua Portuguesa, ano 4, n. 47, setembro de 2009, p. 14)
03 setembro 2009
Lá vem o pato...
- Vó?!
- Sim, J.
- Aconteceu uma coisa estranha...
- O quê?
- Lembra do Hamleto?
- O Patinho de estimação do Jr.?
- Isso!
- O que aconteceu?
- Claudius Jr. afogou ele no vaso.
23 agosto 2009
Protossaber
A frase árabe estende-se como linha sinuosa, pontual e sensual.
07 agosto 2009
Biblioteca Brasiliana
O site da Biblioteca Brasiliana é: www.brasiliana.usp.br
06 agosto 2009
De perfil
05 agosto 2009
Tríptico dos infernos
29 julho 2009
A Universidade interrompida no desejo
Algo acontece com a Universidade, ou melhor, vem acontecendo faz tempo. Há duas coisas que podem acontecer à Universidade. Como uma flor, ela pode ser deixada de lado e florescer. O contrário seria ser deixada de lado, como uma pera na fruteira, e, como é sabido, amadurecer e, destino, apodrecer. Temo que o que ocorre hoje com a Universidade - sobretudo nas graduações - é o segundo caso. E, alarme de incêndio: o apodrecimento é lento, gradual e não tem retorno, embora com a esperança que as ações humanas - vá lá, algumas delas - sempre possuem uma segunda chance.
Os professores estão cada vez mais esclerosados. Poucos de fato se salvam e são objetos de nossas boas lembranças. A maioria é burocrática. Não se preocupam se os alunos aprenderam ou não algo. Apenas querem vomitar o seu conteúdo (muitas vezes inútil), dar a sua aula e ir para casa, crente de que fizeram a sua parte. Os professores não ousam. Não trazem textos e autores fundamentais para as humanidades (uma colega de classe, com quase 19 anos, me confidenciou que jamais havia ouvido falar em Nietzsche!), seja por preguiça, seja por desconhecerem o que realmente importa. As aulas acabam sendo um sacrifício, pois sempre fica a sensação de que poderia se fazer coisa melhor em casa - por parte do aluno - no silêncio do quarto e do auto-didatismo. O que temos, portanto, é algo grave. Grave porque a Universidade sempre foi, ao mesmo tempo que o lugar do rigor do pensamento, o lugar ao qual desejamos ir para nos transformar. Para encontrar algo a mais que a repetição do dia a dia e a extrema superficialidade que cada vez mais assola a sociedade. O desejo está acabando para a Universidade. Desejo de algo grande, da vontade de ascender a um alto patamar de crítica, de pensamento, de humanidade. E nisto, os alunos também tomam parte. Quem são os nossos alunos hoje? Os que não estão apaixonados. Os que buscam suas notas e suas palestras que somente vão preencher os seus currículos e não os modificar. Os alunos que esperam da Universidade apenas a sua catapulta que os lançarão para o seu trabalho repetitivo, que, desesperados, vão necessitar para sobreviver. Onde estão os alunos verdadeiramente escritores, leitores, pensadores, questionadores das suas existências e de sua sociedade? Que, mesmo nos seus silêncios - que muitas vezes é o silêncio da pobreza material - nunca desistirão de algo sempre maior? E, do outro lado, o que fazem esses professores? Estão perdidos? São apenas mais uns espertos? Ou nunca foram o que dizem que são? Onde está o meu professor? Onde está o meu companheiro pensador?
O que estamos fazendo com tudo que criamos? Tudo que depende profundamente da gente para permanecer e que, cada vez mais, é apenas substância vulgar de uma prova que temos que preencher?
Uma estorinha: em frente à Faculdade Letras havia um grande Dom Quixote de lata. Um dia houve uma choppada. Alguém subiu no Dom Quixote e o derrubou. No dia seguinte, o Dom Quixote desapareceu. No canto, próximo à porta do elevador, ele jazia, sem a sua base.
Um verdadeiro, um lúcido e potencial humanista, jamais derrubaria um Dom Quixote. A deslealdade é um dos primeiros sinais da queda do indivíduo.
24 julho 2009
Noturnos
A noite já invadia e apressou os seus passos para não tornar sua respiração tão noturna. Na praia, ao longo de seu enlace com as ondas, as nuvens estavam lindas escuras e misturadas com o crepúsculo enfraquecido pelo intenso arrepio do mar. Pescavam homens e, após iscas e iscas lançadas, anoiteceu. Elas mergulhavam à beira mar presas a lanternas coloridas. As vermelhas saltavam e caíam sobre a superfície do mar secamente, feito um raio de luz rasgando a escuridão. As castanheiras ondificavam a luz do caminho. Os seus olhos, as suas pupilas varavam a superfície da água num zummm. Gatos perscrutavam o seu caminho de volta para casa. E quando chegou, a lua já se impunha a nado. Abriu a porta. Olhou o sofá caído em luz. Uma mulher estava lá. Não a reconheceu. Um pano negro cobria o seu rosto. No quarto, abriu uma caixa de veludo. Dentro havia uma lua eclipsada. Nuvens vagavam pelo corredor. Sorriu brevemente. E se abraçou, sentindo-se sonhar.
*****
Olhou para o céu. Estranhou as estrelas. Estranho descontentamento era aquele de assistir ao espetáculo daqueles astros mas não poder tocá-los. Que estranhamento! Não conseguia entender por que estavam tão longe e, principalmente, por que já estavam mortas de forma tão luminosa e intensa.
27 junho 2009
Pelo coração
II
Quem ama, seja de que forma for, pode temer a morte não a partir de si mesmo. É o outro a quem amamos que nos fará, alguma vez na vida, temer a morte. É pelo inerente fim do outro que nos completa que tememos o nosso fim.
III
Isto talvez pudesse também ser estendido à Humanidade. Se amamos a Humanidade e esta chafurda muitas vezes em seu fim, é bem cabível que, quem ainda possui a capacidade de amar a Humanidade, possa temer a si mesmo com o seu próprio fim antes do tempo.
19 junho 2009
15 junho 2009
Função dêitica
lá cá: lá, lá, lá, lá
aqui et ali: Ali!
cá, cá, cá, cá
onde?
aqui-cá-aiaiaiaíííí
no meu peito.
06 junho 2009
Leitor?, pode passar!
Mergulhados num mundo de choques e emergências, estamos perdendo os nossos leitores - com sacrifício, podemos acrescentar os releitores, ou seja, aqueles que conseguem reler o que já leram. Pois a leitura pede solidão e mergulho. E a nossa sociedade, louca de consumo e banalidades, não nos convida à solidão.
Gostaria de acreditar que a leitura é uma grande diversão. Para mim é também, porque a gente se acostuma. Mas a leitura literária, filosófica ou poética - ou aqueles textos que possuem elementos literários, filosóficos e poéticos - requer esforço, dedicação e paciência. Acreditando, pode-se até se sair melhor destas leituras - e mais perturbado, sem dúvida - mas para entrar nestas leituras está cada vez mais difícil. Nunca fomos tão perturbados em nossas leituras como hoje. Neste mundo que quase pede para você não ler mais, a fim de que fique vagando pela temporalidade infernal do presente.
No começo disse que precisamos de leitores "em vez de", "no lugar de" escritores. Mas não disse "ao invés de", "ao contrário de" escritores. Porque o leitor não é o contrário do escritor. O leitor é a sombra do escritor. O leitor é o silêncio da escrita. É a potência daquele que poderá escrever. No momento, é a potência que precisamos. Um inequívoco leitor se revela de primeira na fala, no diálogo, raras vezes na escrita. E um escritor é um parlador antes de ser um chocador de ideias e palavras.
A escrita pede silêncio. O silêncio do amor. Eis o leitor, uma espécie cada vez mais rara da ponderação improdutiva chamada leitura. Sem o leitor, nenhuma escrita se desvela. Sem um verdadeiro leitor, a escrita não se estabelece, pois ela fica sem densidade, sem brilho de um leitor que escreve porque leu...o mundo, poderíamos subir mais um degrau, para não pensarem só numa leitura física. Porque só um leitor, nas suas múltiplas possibilidades, deve, ou não, escrever.
15 maio 2009
Vagamundo
Somos uma metamorfose, nós, um certo tipo de nós, que na realidade somos todos: filhos do tempo. Somos um grito - este grito não ensaiado da vida. O silêncio não nos cala. Revoltos, somos. Revoltos, seremos. O silêncio apenas aponta. Mas o que desponta é o urro silencioso do grito primordial.
Rastejamos sem luz sobre o nosso próprio ventre.
Só o beijo perfuma os gritos solitários.
10 maio 2009
Jornada
Tão patética e perpétua vista não desejava para os seus amigos passageiros. Mas que amigos? Que passageiros? Eles apenas dormiam, seus corpos foram cansados e vituperados pelo longo dia. Seus olhos de quando em quando se abriam como os faróis vermelhos dos freios dos carros. Stop! seus olhos abriam. Seguiam. Stop! seus olhos abriam. E seguiam. Seus cabelos chamuscados pelos ventos do mar sobressaltavam sobre os arreios do ônibus. E na grande ponte que atravessavam, a seguir pra casa, sonhavam, só sonhavam, meu deus, não é possível, aquela realidade só podia muito lhes convir para ainda sonharem já tão no fim daquela prostituta jornada humana.
18 abril 2009
Bovary para todos
Não deixe de explorar bem este site. É um trabalho de crítica textual impressionante, com os manuscritos originais dispostos ao lado das transcrições. É possível acompanhar os manuscritos desde os rascunhos de Flaubert, passando pelos manuscritos definitivos, os manuscritos do copista até o texto publicado. Há também informações sobre o autor e a gênese deste romance tão importante que levou cerca de cinco anos para ser finalizado por Flaubert.
04 abril 2009
caixa musical
ilusão dos corpos
helenismo estéril e sem pensamento
atração reversa.
nu, nus, translúcido nu
olhares deshorizontados
espelhos que dançam
esferas no alto que gozam a madrugada truncada.
impressão inexata do delírio vital
beijo-espiral
magro espírito
pés-em-transe.
distúrbio do fosforejar
brilhos dos olhos flamejantes
arrastão de palavras
na tridente noite:
dente dos corpos
dente gozante
dente-sudário
destila a grande fonte.
a noite tomba
um a um dispersivos
com a névoa amada pelos lábios veludosos
as margens dos rios
correm entrepeles
ungem os corpos:
eis a prontidão da aurora ridente.
28 março 2009
Passagem II: filosofia
Certa vez, perguntaram a um filósofo: para que filosofia? Ele respondeu: para não darmos nosso assentimento às coisas sem maiores considerações. Ou seja, a atitude filosófica se inicia quando desconfiamos da veracidade ou do valor de nossas crenças cotidianas, desconfiança que surge, sobretudo, no momento em que nossas crenças, nossas ideias, nossos valores parecem contradizer-se uns aos outros. A filosofia é uma interrogação sobre o sentido e o valor do conhecimento e da ação, uma atitude crítica com relação ao que nos é dado imediatamente em nossa vida cotidiana, um trabalho do pensamento para pensar-se a si mesmo e da ação para compreender-se a si mesma.
23 março 2009
estela
Às 4.30 da manhã, escalou os degraus da escada espiral. Lá se assustou com um livro aberto. Um livro ainda abre? As duas páginas aparentes jaziam escuras, cobertas pelo pó do tempo. Seus dedos roçaram sobre uma delas e, agudas, as letras foram surgindo e formavam, tácitas, a seguinte passagem:
O que me interessa nesse momento é fugir à engrenagem, saber se o inevitável pode ter uma saída.
Encontradas, essas palavras não precipitaram o seu olhar petrificado, eterno e feliz.
08 março 2009
16 fevereiro 2009
Sambalêlê
para a burguesia ipanemense passar
joga fora seus corpos condicionados
nas vitrines-apartamento
Burguesia,
vem brincar!
aqui na linha tênue da rua
aqui na pontinha
com seus corpos um só modelo
tão modelos que já podem ser vendidos
for sale & samba.
vem burguesia
aqui na sarjeta
onde a água passa
e o esgoto fica
mesmo com seu ouro e sua prataria
mesmo com a Arte de seus dólares
mesmo com os celulares colados a New York, Paris and London
requebra-requebra, burguesia,
no ventinho do mar azul
vem...
no limiar da loucura carnavalesca
alô alô bourgeoisie de Ipanema
aladas faces branquinhas e rosáceas
deixa as meninas aí
e vem...
deixa as bordadeiras
de seus aquários gigantes
com seus vestidinhos cinza-azuis
saracotearem nas janelas;
deixa as novas donas aí
de camarote dançar o samba.
ô Ipanema dos burgueses
vem com Eros que ele lhe dá samba
sambalêlê, ó Ipanema, sambalêlê.
01 fevereiro 2009
Ofélia in blues
25 janeiro 2009
A Grande Noite
As coisas são vazias
os livros são vazios
- sem carne, sem alma, sem saltos -
esperam por nós, desavisados,
- com carne, com alma, com abismos -
os livros, natos,
ao menos uma vez na vida
esperam pela grande noite
de um leitor distraído...
a noite diante do vazio,
a noite em que foram escritos.
17 janeiro 2009
Anunciação de Gaza
Santa Guerra
a Guerra é longa
a Vida, breve.
Breve é o instante
que pedras são lançadas
e-q-u-i-d-i-s-t-a-n-t-e-s
dos mísseis desvairados.
Gaza vaza miséria
que nem a Eritreia
Revela.
santa terra
da Guerra
Seu sudário
rasga sem Amor;
resfestela-se címbalos de rancor,
é o que resta
desta Festa macabra da Dor.