22 março 2010

leitura-néon


Sinuosamente, os olhos preenchem as letras como com canetas fluorescentes. O negro é o neutro; o colorido, a compreensão. Falo da leitura-néon. Com um leve toque nas têmporas, pode-se alterar as cores e suas intensidades. Com um toque, a cor muda. Com vários toques, a intensidade ascende. A cor é a luz-néon. Gás que se prende às sinuosidades das letras, e que rasga de luz através da energia do olhar. Não é preciso marcadores de páginas. Não é preciso ocupar o espaço entre as folhas com um objeto estranho, nem pedaço de folha, flor, tecido nem meia fina. Com o olhar-néon, as letras luminescentes, no dia seguinte, ainda indicam o lido. As letras permanecem iluminadas marcando a presença do leitor, e deixando estantes, cantos, mesmo casas abandonadas com livros abandonados, mais iluminados. Se aparecerem novos leitores-néon para um mesmo livro, um novo néon surge empurrando o velho néon pra fora, porque, com o tempo, o néon desaparece, escapa, só se renovando com novos olhares luminescentes e coloridos. Também há a opção do néon-branco, cuja luz apaga as letras pra sempre, nivelando o fundo branco das páginas com a manchas escuras das letras. Este é o leitor-suicida. Mas deixemos tal revelação e detalhes para outro momento.
A leitura-néon é a presença do leitor do futuro-futuro. Desejamos que o leitor até lá não morra, ou não morra além do permitido, da morte tolerável pelo texto, por sua vez, já tão premente de energia.

pós-escrito: A leitura-néon não é permitida apenas ao olhar. Também o néon é sensível à voz. Basta o leitor ler em voz alta que o néon também atravessa energeticamente as letras. No entanto, indicamos livros fonofotossensíveis para que a intensidade da luz surja alta mesmo diante de vozes mais puras, finas ou meigas.

20 março 2010

ondas esvoaçantes


Quando contemplo, escrevo. Quando penso, escrevo. Quando falo, escrevo. Quando escrevo - se conseguir - traduzo. E se traduzo, é porque amo. Amo sem dó nem piedade a antiescritura (a anti-mancha), pois, quando penso, escrevo. A escrita é uma dignidade piedosa. Uma compaixão digna. A antiescritura, uma escrita libertada - mas finita. O desejo da escrita é uma ilusão do infinito. Não obstante, há sempre uma mácula a nos transitar, porque, sem desejo-de, não se pode ser.
E a Terra, o Sol, o sistema solar, a galáxia, os buracos profundos, as nebulosas? O que é a visão escritural quando a escuridão não alcança a escuridão?

13 março 2010

O homem mais et cetera do mundo


Certa noite, um homem preto, pobre, desempregado e de um bairro distante, mas bem vestido, resolveu alguma coisa. Pegou uma barca velha e se jogou no mar. A barca não o levava pra sua casa. A barca levava pro sentido inverso da sua casa. Era o que ele queria. Um sentido inverso pra sua vida. Alguém até disse, depois que aconteceu o que vai acontecer: "É um homem torto, nem sabe tomar o rumo de casa direito!".
"Homem ao mar!", disseram, repetiram oficialmente. Alguns passageiros se jogaram pra tentar ajudar. Outros da tripulação também se viram na obrigação de se jogarem no mar pra salvar o homem. Vestiram umas boias redondas feito uns palhaços e se jogaram sobre o picadeiro gelado do mar. O homem não deixava se salvar, mergulhava pra se esconder e, quando os outros, os salvadores, achegavam pra salvá-lo, o desertor tentava afogar os salva-vidas sem piedade. Então, alguém conseguiu dar uma gravata em forma de pirueta no maluco, puxaram-no pra margem e o salvaram. Chegou a polícia e a imprensa com uns jornalistas portando umas gargantas imensas. Todos se perguntaram o que fariam com aquele homem preto, pobre, desempregado e ainda por cima morando longe, embora bem vestido. Alguém de trás, na multidão, deu a ideia de mandá-lo pra casa. Foi assim: "Mande esse traste pra casa!", disse o fundão da multidão. E olha que o homem sem nome nem tinha roubado ninguém e, até quando ele pulara da janela, disseram os passageiros, fez questão de pular com uns óculos escuros bem bacanas e com uma mochila que parecia um paraquedas.
Quando deu meia-noite, ele voltou pra casa. Foi de ônibus mesmo, porque era sexta-feira, os policiais precisavam tomar uma cerveja e os jornalistas deveriam voltar à redação pra aumentar a história. Deram uma passagem pra ele. Voltou encharcado pra casa. A casa mesma. Quando chegou, encontrou a mulher morta de vergonha. Mas, quando ela viu os olhos de seu marido marejados, como que perdidos feito uma planta aquática em meio a um mar revolto, entendeu que a alma dele já não estava mais ali. Algo daquele homem tinha ficado no salto, pra logo mergulhar em meio a espumas que semimisturavam à hélice da barca, que, velha como convinha, transpirava.

11 março 2010

desponta


A vertigem é um pássaro assoprado dentro da gente.