26 janeiro 2010
albatroz
Albatrozes voam dentro de mim
nada posso senão acompanhá-los
- eis o vento do poeta -
encontro com a imensidão.
25 janeiro 2010
porto ao príncipe negro

“Os mortos estão mortos, nós sabemos disso. Mas se você não tem a memória do passado, o restante de nós não pode continuar vivendo."
Um negro voltado para o firmamento sopra uma concha, encimada, levemente oblíqua, pela mão esquerda. Ares de liberdade? Grito de guerra? Ressonância da paz? Abertas as pernas, como uma dança ritualística, com a direita dobrada à frente, e a esquerda esticada para trás, ele arqueia valentemente até o chão, segurando uma pedra com a mão direita. Firme, quebra com ela o elo da escravidão. Firme, não olha para o que se parte, guerreiro a se mover para o alto e não pra terra vã. Mas é a sua terra a conquistada. A terra que lhe permite viver mesmo quando a terra treme. Mas é a sua terra. E ele a confirma para seu povo com o sopro na concha. Diante do palácio branco. Da barbárie que o tempo não calou, a despeito do palácio branco.
Agora o palácio está em ruínas. A terra tremeu pelos homens. Porém o negro firme está, e ainda sopra a memória.
21 janeiro 2010
posto de observação
Na janela, vejo uma lagarta. Nos últimos três dias, ela comeu cinco folhas de um galho que avança pro muro do prédio próximo à janela. Ele come e caga pedaços redondos e pretos que caem no corredor do prédio e mancham feito a jabuticaba quando estoura no chão. No dia seguinte, a lagarta sumiu. Sonhava vê-la borboleta, mas foi só um sonho. Ela só queria comer e pronto. Quando se saciou, ou a folha ficou enjoada, ela sumiu. Quem sabe foi comida por algum pássaro, por algum gato, ou sugado pela própria natureza ou pela escuridão da noite.
(Olha, na verdade, penso que não existe a escuridão da noite. Nesses dias, uma senhora minha vizinha faleceu de madrugada. O apartamento ficou vazio na noite seguinte. Veio a escuridão da noite. Abri a porta do corredor. Olhei pra porta dela. Mas nada aconteceu. Portanto, não existe a escuridão da noite. No entanto, a sucção da natureza existe.)
Tinha esperança naquela lagarta, mas ela só queria comer o que queria comer. Algumas lagartas não se engajam com o tempo e o destino. Tudo que elas querem na vida é comer e cagar pra manchar a passagem dos outros. Era melhor então que tivesse caído jabuticaba em vez dessas bolinhas pretas que não servem pra nada. A lagarta surgiu do nada e sumiu do nada. Não poucas vezes é isto que também acomete aos homens. Pra lagarta é melhor, porque ela não é moralizada. Quero ver se a lagarta fosse moralizada. Ela voltaria àquele mesmo galho, àquelas mesmas folhas e insistiria naquela repetição. Mas não, a lagarta sabe que mudar de ares é fundamental. Embora lenta, a lagarta não conhece o tédio.
O galho faz parte duma goiabeira. A goiabeira recebe muitos pássaros, um deles de azul brilhante quase cinza que, sempre acompanhado de outros da mesma espécie, furam as goiabas fartas neste verão. Foi neste verão que as goiabas apareceram. Mas quem se importa, aqui, com as estações do ano? As goiabas surgiram. E fora do alcance da janela.
Já por duas vezes, vi um gato preto e solitário na copa da goiabeira rastreando o entorno e vendo se dava pra fazer algo. Esse gato é o mesmo que vejo miando ao lado de meu portão. Ele, sempre que pode, na verdade, sempre que necessário, chafurda o lixo que eu e meus vizinhos jogamos no final da noite. O gato, na copa da árvore, se aninha num galho alto e espera. Ele me olha a contragosto. Eu não deveria estar ali, porque ele sabe que observada a coisa fica mais ridícula. O gato ficava por um tempo por lá, se excitava de vez em quando numa revoada de pássaros, mas depois desistia. Como se sabe, gato não voa.
O dia passou.
01 janeiro 2010
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