24 março 2014

Antiguidade


Lembra a vez
que estávamos rolando ovos
sobre o assoalho vermelho da sala?

Papai se abaixou na nossa frente
apunhalou os ovos
e disse:
– Hora de crescer!
e disse:
– E não pode ser Filósofo ou Poeta!

Nós confirmamos
(relógios de pêndulo)
os ovos apunhalados sobre as mãos
a clara escorrendo entre as coxas
hecatombes oferecidas à consumação do futuro
clara-óleo
em corpos de ginastas
lançando os discos-ovos à esfinge paterna.

Você lembra?

20 março 2014

Golpe de ar


Suspendeu o andar
ondeou os pensamentos
foi cristado pelas ondas
sob o ar golpeado da avenida.

Quando se enamorou
já aveludado
... flocoso...
aprendeu a suspender o vazio
das horas de estio
estivadas
no barco sombrio.

Quantos andares
quantas ondas
há de desferir o seu peito brumoso
há de soletrar o desdito nessa sua boca fanhosa
há de conferir com ardor
o vazio de seus gestos.

14 março 2014

Cantiga de amigo


Um grande segredo vou a vocês confiar: 
Nas garras de um gato não é cômodo cantar (Krylov).

Se desço ao inferno
sua mão alcançaria 
a falta de uma ilusão?

se a floresta que me permito
são as sombras e a permanência do inverno
sua voz vibraria
ao alcance da dor?

quais possíveis raízes
nasceriam na sua boca
quando uma gota de orvalho
clamasse uma flor?

tantos clarões
permeando o labirinto
semeando o olvido
cintilando a solidão

se desço ao inferno
sua mão: alegria
minha chã poesia
se enleva em cor.

12 março 2014

A ronda


A vida é a luz do homem, e a luz acende na treva, e a treva a acolhe (via Tolstói; modificado).

Cai o céu
derretido como breu
anunciado pelo crepúsculo na faca

vêm as crianças, desenroladas
estrelando vesga noite
no beco, soturnas
sombreando o pelo afagado da gata
suas línguas em chamas

chispas sobre o telhado
grunhidos de porcos
mansardas marteladas a seco

vêm as crianças, vêm
vêm encarniçadas
estuporadas, felinas
o miar no acúmulo da noite
o mar no furúnculo da vida

(sobre o peitoril da janela
uma moça enxuga as lágrimas
nos domos dos cabelos)

as crianças zunem
uma galinha é morta com alegria
depenada na dor muda

um bêbado baba uma solidão
vaga-lume do tédio

um arpão passa
dantesco
geometriza as sombras
redemoinha a luz

os sapatos rasgam um punhal de terra
lambem os sulcos
medram e fenecem o tempo.