27 junho 2009

Pelo coração

I
Envelhecemos e, pela aparência, nos sentimos tristes muitas vezes. Mas, ao reconhecermos a velhice em quem amamos, nos regozijamos. Há um estranho prazer, algo da ordem do pleno, em envelhecer com a pessoa amada.

II
Quem ama, seja de que forma for, pode temer a morte não a partir de si mesmo. É o outro a quem amamos que nos fará, alguma vez na vida, temer a morte. É pelo inerente fim do outro que nos completa que tememos o nosso fim.

III
Isto talvez pudesse também ser estendido à Humanidade. Se amamos a Humanidade e esta chafurda muitas vezes em seu fim, é bem cabível que, quem ainda possui a capacidade de amar a Humanidade, possa temer a si mesmo com o seu próprio fim antes do tempo.

19 junho 2009

Transfiguração do você

Vossa mercê:
vosmecê:
vossuncê:
vancê:
você:
ocê:
cê:
vc:
c:
.:
quem-o-quê?

15 junho 2009

Função dêitica

Acolá aloca-acolá
lá cá: lá, lá, lá, lá
aqui et ali: Ali!
cá, cá, cá, cá
onde?
aqui-cá-aiaiaiaíííí
no meu peito.

06 junho 2009

Leitor?, pode passar!

Pois sim. Nunca precisamos tanto de leitores em vez de escritores como no agora. De fato, sempre necessitamos de leitores. Sem leitores não há escritores, poderíamos dizer. Mas o que acontece hoje não é bem isto. Todo mundo escreve, mas poucos verdadeiramente leem. Um exemplo são os jornalistas. É difícil acreditar que um jornalista, com a jornada de trabalho que tem, consiga tempo para ler. Suponho que acorde pensando em escrever, para fechar as suas inúmeras pautas, mas dificilmente acorda pensando em ler algum texto, livro ou poema importantes.
Mergulhados num mundo de choques e emergências, estamos perdendo os nossos leitores - com sacrifício, podemos acrescentar os releitores, ou seja, aqueles que conseguem reler o que já leram. Pois a leitura pede solidão e mergulho. E a nossa sociedade, louca de consumo e banalidades, não nos convida à solidão.
Gostaria de acreditar que a leitura é uma grande diversão. Para mim é também, porque a gente se acostuma. Mas a leitura literária, filosófica ou poética - ou aqueles textos que possuem elementos literários, filosóficos e poéticos - requer esforço, dedicação e paciência. Acreditando, pode-se até se sair melhor destas leituras - e mais perturbado, sem dúvida - mas para entrar nestas leituras está cada vez mais difícil. Nunca fomos tão perturbados em nossas leituras como hoje. Neste mundo que quase pede para você não ler mais, a fim de que fique vagando pela temporalidade infernal do presente.
No começo disse que precisamos de leitores "em vez de", "no lugar de" escritores. Mas não disse "ao invés de", "ao contrário de" escritores. Porque o leitor não é o contrário do escritor. O leitor é a sombra do escritor. O leitor é o silêncio da escrita. É a potência daquele que poderá escrever. No momento, é a potência que precisamos. Um inequívoco leitor se revela de primeira na fala, no diálogo, raras vezes na escrita. E um escritor é um parlador antes de ser um chocador de ideias e palavras.
A escrita pede silêncio. O silêncio do amor. Eis o leitor, uma espécie cada vez mais rara da ponderação improdutiva chamada leitura. Sem o leitor, nenhuma escrita se desvela. Sem um verdadeiro leitor, a escrita não se estabelece, pois ela fica sem densidade, sem brilho de um leitor que escreve porque leu...o mundo, poderíamos subir mais um degrau, para não pensarem só numa leitura física. Porque só um leitor, nas suas múltiplas possibilidades, deve, ou não, escrever.