07 setembro 2008

Circular

A rua ainda estava lúcida, mas os carros que a seguiam não. Um desses, muito nobre, parou próximo a uma árvore, onde a luz pública, da madrugada e pálida, não penetrava. Os faróis vermelhos, com uma parada suave, perscrutavam o metro à frente do carro. As folhas secas se destacavam dos galhos e caíam com o vento, que as fazia circular em meio ao vazio da rua.

A porta do automóvel se abriu, sem escancarar. Dizia o homem ao lado: 'Saia!' Um primeiro passo e um brilho sem igual semiluziu o tronco da árvore. Saía com um vestido de lantejoulas prata. Visível era agora sua meia, trançada como uma teia. Uma aranha profissional identificava ali o labor cuidadoso de um percurso... Tocava o chão com o salto-agulha. O toc-toc de sua caminhada era o sumiço do carro que ali se avizinhava. As sombras desistiram de qualquer aproximação.

Na rua transversal, outro automóvel vinha. Nobre objeto de quatro rodas que assim rodava sem direção. O vestido brilhou contra o vidro e o vidro sujeitou o olhar. Já tinha dado dez passos desde a saída do outro nobre. O outro carro parou. Aproximou-se da outra porta, descendo levemente sua meia aracnídea. Ainda se via sua coxa recém-depilada. Aproveitara algum banheiro em meio a madrugada para fazer a toilette. O homem, suado, deixou que escorregassem os óculos de seu nariz. Disse apenas em seguida: 'Entre!' Suas pernas envergaram. O vestido se enlameou ao banco traseiro. O nobre seguiu. O ar tilintou no ar. E sorriu.