Nossos dias passaram e não os documentamos em nossos próprios espíritos. As memórias foram parciais quando submetidas às decisões do tempo. Decidiu-se pelo advento de um tempo futuro, com resquícios valorativos de um passado cada vez mais distante. Imaginamos, então, parcialmente o passado que, com fantásticas atitudes inexistentes, nos reforçam para um futuro com fim.
Os porta-retratos da sala são levemente antigos. Legam aos nossos olhos cotidianos a persistência de um passado quebrado e disforme. Já não mais temos aqueles sorrisos, nem aquela união, muito menos a consistência daquela alegria. Somos para cada lado de nós atualmente, inclusive quando firmamos os olhares presentificados naquelas faces enquadradas nos porta-retratos, cujas molduras estão carcomidas pela ausência da afirmação alegre de vivências atuais alegres. As memórias parecem se revolver formalmente alegres somente com a soberania de um grau presente de alegria ao menos interna. Não o temos. Não documentamos também nossos graus de alegria interna. Contraímos, portanto, a existência interna.
Nossos esqueletos seguram maçãs podres e nossos porta-retratos chafurdam a terra para o enterro de nossas memórias. As janelas se fecham. As flores murcham. A atmosfera e o ambiente congelam-se no período glacial interno de nossa casa. As fotografias são tiradas. Enegrecidas de cinzas são expostas nos porta-retratos. Já estão documentados os nossos resquícios.
26 julho 2008
Retroato
19 julho 2008
Ciranda
Uma pequena praia que se perdia nos confins do mundo. Os confins do mundo para o nosso mundo. Passavam férias. As crianças na areia. Um casal, mais uma menina desconfiada com o seu mundo e um pequeno menino satisfeito, etérea visão externa àquela afirmação inicial do homem, com sua lúdica carne inconsciente do mundo. Os pais levemente bonachões. Envergados nas suas cadeiras verdes-profundo-mar. Esquecidos nos confins do mundo para o nosso mundo. Esquecidos daquela praia, sonhando com suas próximas vagas futuras.
Umas ondas. Sim, umas ondas gostosas se aproximando. Uma suave brisa. Uma brisa suave mas forte na proximidade da praia. A visão da menina se contorce para o horizonte e retorna para a areia. O menino ludicamente vai ao encontro das ondas. As ondas são as ondas. Vêm na altura, balançam, quebram exatamente nos dedos do menino, retornam para o recomeço. Conhece a natureza aquele pequeno menino. Desconfia já da natureza a menina. Cinicamente desprezam a natureza, os bonachões.
As ondas correm fortes. Chegam aos dedos do menino. É um brinquedo elementar e pequeno das ondas. Seus dedos desaparecem para o fundo. A menina corre. Os pais já estão no sono e continuam nele para sempre. Ela chora. As vagas invadem toda a costa. Ela mergulha. A menina mergulha as suas ilusões. Remexe as suas bolhas de ar quase findando para o regozijo das vagas. O mar é repetição eterna. Eterna certeza até saber que sua certeza é a linha dos pés do homem.
Às margens das sombras
No primeiro grão
uma sombra
nos sobressaltos dos grãos
várias sombras
que se remetem ao seu rosto
às suas mãos
ao afago da dobra de todos os seus dedos.
todos os grãos se vão
e as nossas mãos
e as nossas sombras
e todas as vagas que nos trouxeram o despertar.
12 julho 2008
Gelatina: modo de usar
comportava-se no potinho vinho
as lâmpadas do quarto
incendiavam a cor vermelha-vítria
da amora guardada
pelas mãos amaciadas
com a colher longa e metálica
suspendia os glóbulos gelatinosos
até que tocassem a ponta dos lábios
assim tornados gélidos
pela ponta coligida
a gelatina entrava
a língua se remexia
os olhos fechavam extasiados
o suspiro era uma delícia.
Tessitura
só o corpo
como forma dentro do mundo
algo reinventa o interior
a qualquer momento a luz
surge na fissura dos olhos
e se abre
uma grande galáxia
abre-se.
06 julho 2008
Fino pássaro
na janela
uma vela
rompe uma chama no firmamento
- é o pássaro de fogo -
sobrevoa a pureza da vela
arde-a.
tempos começam naquela madrugada:
o fio destemido
desfaz-se,
a visita do pássaro é constante
a vela apaga-se ao dia
o fogo reconstrói sua chama
à noite.
ao término da cera
quando esta se transforma
numa substância orgânica
i-m-p-u-r-a
o pássaro de fogo põe-se ao seu lado
já cansado de arder o tempo
engole as suas entranhas em chamas
abriga-se em suas plumagens chamuscadas
digno de ter consumido
uma fina existência.
02 julho 2008
Terremoto circense
circo sobre-humano:
é o centro da Terra
intramundo despedaçado
sobre o magma original
II
arranha-céus tremem pendulares
rangendo um novo Tempo
III
novas ondas do âmago
em zênite para enovelar os homens
IV
os hominídeos:
fumam o ar
e devolvem um sopro mundano
suposto maior que a poeira
e as vagas universais
V
circo sobre-humano:
a incerteza do Ser no mundo
espiral carrossel vital
cavalinhos rosáceos
edulcorados pela antivida
à espera da esperança
do centro da Terra Devaneada.