16 dezembro 2011

pária


Não, não pares!
Para!
Pária.

Não, não pares!
Para!
Pária.

Não, não pares!
Para!
Pária. 

Não, para:

e-u não
             desejo-te
a grande Dor.



05 dezembro 2011

vitriosidade


rui a manga
sob o galho pênsil
tomba na tumba
telhado de vidro

tumba rasgada
roída pelo verme
nítrico
rajada pelo morcego 
sulfídrico

tomba mais uma
uma a uma
bombas sobre a cidade em chamas
uma a cada vez

a cada vez

mangas decaídas
explodidas rasgadas corroídas
nas entranhas fugidias

mangas trespassadas esgarçadas por bananas frígidas

casca derretida
soluçada vertida
por olhos vítreos.

20 novembro 2011

descida da poesia


desci um livro numa cumbuca
aos vizinhos do primeiro andar
Disse: adeus, vai-te livro vagabundo
pela corrente vertical do ar,
vai-te espécie estranha
coberta de entranhas do desejar.


o livro chega nauseabundo
sem qualquer acabrunhar
sem as dores da chegada
nem saudades de parir no ar.


ninguém apareceu
(coitada da mão que o pariu)
ninguém se dispôs a lampejá-lo
nem o cachorro comeu
nem a chuva gerou o cotejar.

16 agosto 2011

sem tempo


o tempo perguntou
pro tempo
quanto tempo
o tempo tem

 
o tempo respondeu
pro tempo
que o tempo
tem tanto tempo
quanto tempo
a poesia tem.

29 junho 2011

orquídeas não são flores


há um mês comprei uma orquídea,
mas ela ainda não floresceu.

há seis meses comprei uma orquídea:
ela ainda não floresceu.

há um ano comprei uma orquídea:
ainda não floresceu.

há dois anos comprei uma orquídea:
ainda não...

há cinco anos comprei uma orquídea:
não,

- orquídeas não são flores.

17 fevereiro 2011

o que me vem como vento



Pelo menos uma vez na vida, cada pessoa se sentirá estranha consigo mesma e frente às outras. Mesmo os homens mecânicos, homens sem vida, homens utilitários, homens sem serem homens, homens mais animais do que humanos, mesmo estes se sentirão estranhos uma vez na vida.
E então sentirão o abalo. Tomarão consciência com susto ou sem susto. Talvez poderão seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Mas foram abalados.
Uma bala é guardada ao lado de seus corações esperando pelo último abalo. Pelo último estranhamento, a misericórdia de um estranhamento que não se concretizou ao longo de suas vidas.
De certo, nada pode acontecer: são homens mecânicos. Mas quem saberá, quem saberá se nem ao menos podemos tocá-los com nossas emoções nem mergulhar as nossas mãos no espaço vazio que os move mecanicamente?
Ora, pobres homens, pois nem o vento se move assim.

07 fevereiro 2011

Flamas




livros esquiam sobre a baía

esquizos saltam da ponte
ondas quebram surfistas
montanhas geram derrames

barcas expelem homens
arranha-céus fogueteiam golfinhos
asfaltos farejam sangue
igrejas engolfam espinhos

castanheiras torpedeiam carros
janelas se estilhaçam sobre fios
poetas se ventam sem semblantes
amores se desviam como rios.

01 fevereiro 2011

ACELERADOS



topei com um mendigo
numa avenida celerada
toquei-o
pra ver se era verdade
toquei-o
pra ver se era mentira
toquei
na sua ferida descarnada
para ver
para vê-la resistida.

18 janeiro 2011

sombras metafísicas



Deus, se ele existisse por minha razão, não poderia conhecê-lo - muito menos senti-lo. Conhecê-lo seria uma atitude prática e destrutiva em vista daquele que foi concebido para não existir diretamente. Portanto, me calo. Me calo não porque não posso concebê-lo; me calo porque não é preciso concebê-lo por meio de uma razão limitada. A concepção de Deus, se necessária, precisa ter um destino silencioso, isto é, o destino do conforto emudecido e imediato diante das desrazões dos homens.
É o Universo que grita por um destino conceptivo. Mas Ele não precisa de nós. Somos nós que precisamos dessa angústia - de fato, natural em alguns, provocada em outros, ou inexistente na maioria - da existência possível de um Universo sem a medida do homem. Deus tem a medida do homem, de suas questões, das suas alegrias aos seus desesperos. Não obstante é na desmedida do Universo que está encravado o destino do homem. Não sabê-lo como dimensão certa é nosso destino. Podemos apenas sonhá-lo e desejá-lo na infinitude de nossos pensamentos. Apesar dessa potência humana, não é difícil imaginar que, diante do Universo, somos a menoridade de uma escuridão repleta de dúvidas, repleta de luzes a se apagar, a emergir de escuridões impalpáveis.
Deus é o ego do homem. Seu interior não conhece limites, sobretudo os metafísicos. Tendo em vista que
o exterior do homem é repleto de limites - o exterior mesmo é um limite - então o Universo pode ser concebido como o maior de seus limites exteriores. Mas, diferente de Deus, o Universo pode ao menos ser a potência da liberdade do homem. Cabe a nós concebê-lo como um novo deus em nós mesmos.