'Você precisa me dar uma prova de amor', dizia ele. Ela não entendia. O normal é que o simbolismo das provas de amor viesse dele.
'Nos próximos dias vou fazer-lhe então', disse ela. Ele, desconfiado, achava que o contrário podia ser feito. Uma prova irônica de amor, talvez. Um prova de um meio-amor.
Certo dia, ele descascava uma laranja. Mania tinha de descascá-la calmamente. Deixava-a desesperada quando resolvia presenciar o ato. Nem na cama ele a despia com tanto detalhe.
Pois bem, a faquinha em suas mãos e lá ia ele para cozinha, retirando a casca geometricamente, sentado diante da mesa de tampo de mármore. A espiral da casca se formando. Ela, sem querer, sentada no outro lado da mesa, como não querendo nada.
Passaram os minutos. A laranja estava descascada. Não, faltavam os gomos. Os gomos... Retirava-os um por um. Como se estivesse retirando cada tijolinho vermelho dessas casas de tijolos rubros e antigos. Lado a lado, permaneciam eles até o ritual antropofágico final.
O ar ficou tomado pelo cheiro cítrico. Ela via algo de sensual, desta vez, naqueles gomos. Suas bochechas, repentinamente vermelhas, fizeram-na levemente descer sua cabeça sobre o tampo da mesa. Com um suspiro, sentia o gelado do mármore tocando a pele da face. Como um gozo numa cama. E ele continuava com os gomos, agora os chupando, um por um, separando os pequeninos caroços num lado periférico da mesa. Um por um, os caroços iam saindo de sua boca. Os lábios meio que se fechando no sair e deixando nas extremidades das criaturas pequenas a saliva de sua língua.
Ela, como não querendo nada, levantou-se da cadeira. Vestia um top vermelho vagabundo e um shortinho jeans de qualidade. Foi assim que, em seguida, passou para o lado dele e recolheu os caroços. Na sua frente, abriu seu short instantaneamente. Ele nada entendia, pois. Embriagada, ela pegou os caroços e os depositou dentro de sua calcinha laranja.