24 maio 2010
pulologia (jumpology)
Quando se pede para alguém pular, as máscaras do sujeito caem.
Mas este alguém não pode ser um bailarino.
Este alguém precisa ser ninguém no pulo.
O pulo lança este alguém no ninguém.
O pulo é desmistificador do sujeito.
Ele desestabiliza para uma entrada rápida no além-eu.
Por exemplo, um pulo é parecido com uma verdadeira literatura.
21 maio 2010
20 maio 2010
rastro
o cheiro dos livros
com uma solidão
com uma melodia (a melodia)
que me leva da luz
enleva a luz
tenebrosa luz
que me conduz à escuridão.
11 maio 2010
A derrota da página em branco III
"Escrevemos para recordar ou para ir adivinhando o desconhecido? Certa vez Julio Cortázar recomendou: "Conte a história como se só fosse de interesse para o pequeno círculo de teus personagens, pensando em que poderias ser um deles." Eu não encontro uma melhor recomendação para os que quiserem se meter neste caos que é escrever quimeras. Inventar mundos é querer adivinhá-los. Quem são eles? Quem foram? O que pensavam? O que os comovia? Onde vivem? A quem desejam? A que se atrevem? É para isso que escrevo romances. Para sonhar com outros, para inventar pessoas que gostaria de conhecer, com as que me façam bem conviver durante horas, durante dias estendendo-se por anos. O que me acontece não preciso reinventar, e quando tento fazer algo assim sempre termino aceitando que a história que conto foi minha. Escrever é um jogo de precário equilíbrio entre a coragem e a soberba. Também entre seus opostos: o medo e a humildade. Sobre como escrever, sobre os truques e os equívocos, não sei falar muito bem. A única coisa que sei com a claridade da água é que escritor é quem escreve todos os dias, todos os momentos livres e sempre que observa algo, ainda que não tenha lápis, nem teclas com as quais deixar constância de suas palavras."
[fonte: Ángeles Mastretta, no El País.com, em 17/04/2009; tradução livre]
10 maio 2010
fórceps
Esquecer a própria língua para apreender outras. E justamente amá-la muito mais quando do retorno de terras tão distantes.
Mas o que fazer se a própria língua é um desatino dentro de si mesma? Como tornar o desatino com mais tino para a entrada - pela porta estreita - do passageiro estrangeiro?
É preciso renascer na língua estrangeira. Mas o nascimento não será romanticamente natural.
Será de fórceps esse nascimento sempre excepcional e estranho. Esperemos que, antes da porta se estreitar, ele não surja natimorto.
Pois é de se compreender que algumas línguas não nascerão nem natural nem artificialmente dentro de nós.
No entanto, sonhos podem persistir em ventres mais livres e, à força, mais insistentes.
Assinar:
Comentários (Atom)