31 agosto 2008

Mobile

Um bebê está no colo das ondas. Ele sonda o tempo. Ele sente náuseas. A espuma bate em suas costas. Ele sorri e cresce de asas. Fecha os olhos e decresce. Mas foi ás na vida.

30 agosto 2008

Silêncio Flutuante


Há uma possibilidade de silêncio no mundo, isto é, o mundo parece verdadeiro apenas na quietude do ser. Muitas vezes, não se tem a possibilidade de falar, porque a fala já é recebida como desentendimento. Como uma face verbal negra e sem valor. No silêncio da literatura, talvez possamos gritar com mais verdade para o mundo. Velando nossas verdades nas palavras. Deixando ecos a descobrir em cada palavra que notamos a partir de nossa visão de mundo. Quem quiser a procure e talvez ninguém nunca a procure, porque as palavras talvez só sejam para si mesmas. Desinteressadas do mundo, mesmo assim se põem no mundo. Na leve quietude da iminência do nada. As palavras já foram para quem escreveu e é isto que importa. Ou não importa, e é por isto que lemos.
Estendemos nossos espíritos e deitamos a fim de vislumbrar um horizonte somente na grafia das palavras. E sozinho, no silêncio, por mais doloroso e sem alteridade que seja essa mudez existencial, podemos nos abrir e ser livres. Parece que somente aqui podemos ser livres. Levarmo-nos para onde queremos. Invadir o que queremos. Sugar do mundo o que bem pretendemos.
As palavras, apesar de serem construções abstratas de uma visão de mundo e de uma inteligência de mundo, que jamais serão as mesmas, alteram um peso de nossas existências. Saindo e nascendo para o mundo, as palavras parecem jogar para fora partículas iminentes de explodirem no interior dos corpos. Porém, essas partículas podem ficar nos corpos uma vida inteira, porque, impossibilitados pela pobreza da linguagem, e chamo aqui a linguagem escrita, os seres não conseguem expressar os seus sentimentos absolutos e, desta forma, silenciam seu vasto e único espírito vivido.
O que quero dizer com isto é que alguns emudecem porque não conseguem falar, outros emudecem porque não podem falar. É nesse duplo silêncio que se dá a possibilidade cada vez mais constante do silêncio. Da quietude. Do nascer de um humano silencioso, posto que desatado da possibilidade de sua liberdade de falar. De pré-sentir algum mundo e, com prazer, inter-relacionar um microcosmo interior e autêntico porque uno.
O silêncio: aqui se esconde a beleza da Literatura. Mas o silêncio também é a impossibilidade de ser livre.


17 agosto 2008

Endofagia

Foi viajar e os livros estavam adormecidos naquele período. Tratara de colocá-los com ternura em caixas coloridas, nas quais, nos próximos meses, repousariam como bibelôs num canto da sala.
Sua mãe não lia. Seu pai não lia. Seu irmão não lia. As vizinhas de sua mãe não liam. Não teria sentido deixá-los expostos por todo este tempo. E, além do mais, Eles, os livros, não queriam ir nem para uma biblioteca, nem para casa de amigos. Não suportavam a iminência do fim da constante ternura dia após dia de seu dono. Dos toques de seu dono. Da pureza infinita do toque de seus dedos delicadamente roçando uma passagem relida com ardor. Os objetos respiravam profundamente. Sabiam que não eram os fins.
Meses se passaram. Sua mãe já expunha as caixas na sala para o serviço das visitas. Algumas já viravam encosto para um lustre. Outras haviam sido colocadas de cabeça para baixo em outros cantos. A matriarca tinha esquecido que os livros tinham sido colocados cuidadosamente de capa para cima. Respiravam de capa para cima.
Numa noite úmida e quente, sua mãe acordou exasperada pelo calor. De pés descalços, sentiu um líquido bater na sola de seus pés, vindo das caixas coloridas. Agachou, jogou no espaço quatro dedos e os raspou no chão, a fim de tatear o material residual que se disseminava. Jogou os olhos para as caixas: estavam úmidas. A mãe naturalmente olhou para cima: possivelmente era uma infiltração no apartamento. Jogou então as caixas para outro canto. Mas estava seco o chão. Resolveu abri-las.
Um minuto antes tinha esquecido o que tinha ali. As caixas já eram mistérios para o seu olhar. Afinal de contas, já havia passado dois anos. Mergulhou assim seus braços largos e suas mãos, que desciam aninhadas com a ajuda de seus dedos. Percebeu que os livros, em pares, estavam colados uns aos outros. Em seguida, quando tentou separá-los, cada casal de livros se rasgavam também uns nos outros. Suas letras impressas escorriam enegrecidas e se manchavam mutuamente. Os casais de livros pareciam tão aderentes uns aos outros que suas folhas, intricadas num bloco só, pareciam um material cardíaco com íntimas veias que, aparentemente emboladas e sem orientação, sabem com precisão para onde seguem, como seguem e que nutrientes levam consigo mesmas. E a mãe percebeu que os livros se amavam uns aos outros. E percebeu que os livros liam uns aos outros. E, na iminência de um toque estranho, suicidavam-se uns em frente aos outros.

09 agosto 2008

Mimus poly-glottus

'Você precisa me dar uma prova de amor', dizia ele. Ela não entendia. O normal é que o simbolismo das provas de amor viesse dele.
'Nos próximos dias vou fazer-lhe então', disse ela. Ele, desconfiado, achava que o contrário podia ser feito. Uma prova irônica de amor, talvez. Um prova de um meio-amor.
Certo dia, ele descascava uma laranja. Mania tinha de descascá-la calmamente. Deixava-a desesperada quando resolvia presenciar o ato. Nem na cama ele a despia com tanto detalhe.
Pois bem, a faquinha em suas mãos e lá ia ele para cozinha, retirando a casca geometricamente, sentado diante da mesa de tampo de mármore. A espiral da casca se formando. Ela, sem querer, sentada no outro lado da mesa, como não querendo nada.
Passaram os minutos. A laranja estava descascada. Não, faltavam os gomos. Os gomos... Retirava-os um por um. Como se estivesse retirando cada tijolinho vermelho dessas casas de tijolos rubros e antigos. Lado a lado, permaneciam eles até o ritual antropofágico final.
O ar ficou tomado pelo cheiro cítrico. Ela via algo de sensual, desta vez, naqueles gomos. Suas bochechas, repentinamente vermelhas, fizeram-na levemente descer sua cabeça sobre o tampo da mesa. Com um suspiro, sentia o gelado do mármore tocando a pele da face. Como um gozo numa cama. E ele continuava com os gomos, agora os chupando, um por um, separando os pequeninos caroços num lado periférico da mesa. Um por um, os caroços iam saindo de sua boca. Os lábios meio que se fechando no sair e deixando nas extremidades das criaturas pequenas a saliva de sua língua.
Ela, como não querendo nada, levantou-se da cadeira. Vestia um top vermelho vagabundo e um shortinho jeans de qualidade. Foi assim que, em seguida, passou para o lado dele e recolheu os caroços. Na sua frente, abriu seu short instantaneamente. Ele nada entendia, pois. Embriagada, ela pegou os caroços e os depositou dentro de sua calcinha laranja.

03 agosto 2008

Pathos

Em levante a primeira flor azul
no campo sem dor
as águas-marinhas invadem o nosso pensamento
amor escorre pelos nossos olhos
assustados mas brilhantes

no primeiro anoitecer a brisa
ama nossas peles
lambe nossas faces
molha no corpo: flores,
que vermelha, azul, negra
refletem a trilogia da paixão:
amor melancolia dor

invade a esfera celeste
os jardins floridos em chamas
faz das águas-marinhas
as flores de nossas tramas.

To dentrum


A expansão interna é alucinação na sociedade atual. O ser interno é pressionado por questões externas a todo momento. A atitude expansiva é tida como inércia do ser, no entanto, é na verdade afirmação do homem como eterna substância que não se contém com espaços vazios existenciais. É difícil lidar com a questão: o que é a expansão interna? O que é a expansão interna para um, pode não ser para outro. O que é profundo para um ser, é ausente de pressão interna para um outro. Mas, por exemplo, se escrevo e escrevendo quero passar uma percepção profunda de mundo ou o que acho profundo no mundo, então temos uma expansão interna, pois um ser contrai uma percepção externa para mergulhá-la em suas indagações internas, a fim de expandir para além das suposições lógicas do mundo. As suposições lógicas do mundo são as suposições esclarecidas por uma maioria humana.
Não podemos dizer que uma longa expansão interna do ser pode levá-lo, futuramente e finalmente, a uma contração plena de personalidade única. Como sujeito exposto à adversidade constante do mundo, sobretudo o mundo pós-moderno, o ser está sempre em expansão. Na realidade, podemos dizer que há sim uma contração dentro da expansão, pois aquela é uma atitude do ser para refutar uma expansão mal feita, ou seja, a expansão correlacionada com outro ser. É preciso compreender que a expansão interna é, infelizmente, uma ação solitária. Dois seres são visões de mundo diferentes e, ao tentarem se expandir juntos, provocam uma contração em uma das capacidades expansivas. A troca de dois seres só se dá externamente. Esta é seguida, quando da vontade do ser, por uma expansão interna, a qual se dá, portanto, com o tempo, numa atitude solitária e, conseqüentemente, mais próxima da condição anímica-individual do homem.