Você insiste na praia. As solas de seus pés fazem um arco sobre a areia úmida. Seu rosto, guiado pelo horizonte, acompanha as ondas. Os cabelos esvoaçam, entregues à soberania convulsa do ar livre. O empuxo do vento sobre o seu pescoço faz dobrá-lo arcaicamente. Os olhos fechados, as sobrancelhas arqueadas e desaparecidas num voo de pássaro, a boca magra, com um leve sorriso enternecido, lembram uma cabeça de Modigliani.
Começa a chover, e uma gota espichará na areia como um cometa arrasando os seus pretextos de mulher abandonada e dramática. Não sei por que você chora, só olho de cima, e não vou me preocupar se uma beleza quase extinta se dissolver na espuma das ondas, enquanto sorvo daqui de cima esta chuva oblíqua, que risca meu rosto sem piedade, como faria o desgraçado de seu irmão gravurista tateando o indefinido.
Fique aí embaixo. Não lhe perdoo, embora pressinta que minha amargura não acabará com a sua beleza, nem me fará esquecer o gozo daquele jardim das delícias. Mas só sua beleza importa a si mesma, e eu não aguento mais sofrer sem uma dor que me comove, sem um belo que ao menos me assista.
Quer saber, só estes fogos de artifício me comovem, e, se eles explodem e silenciam, é porque tudo ainda pode acabar com um movimento ambíguo e indefinido. Pois eu não poderia dormir toda noite se ao menos uma memória comovente não me aguardasse para me prantear todas as manhãs.