06 agosto 2009

De perfil

Deixa eu contar. Um dia encontrei um cão. Ele dormia enquanto um temporal riscava a rua à sua frente. O vento rajava. Ele se encolhia igual aquela minhoca sobre si mesma que encontramos no jardim botânico e que, estandando sem casa, resolvera dormir no rosário - dentro duma rosa. Aquele cão era despreocupado. Despretensioso. Com seu pelo, suas patas, seus caninos, seu rabo vulgares. Não se igualava àquelas cocotes que encontrávamos todo dia pelo manhã na praia aos domingos segurando cadelas que pareciam ter levado um susto. Ele era cão e nada mais. Nada mais podia partir de seus olhos que a concretude da vida. Se aquele cão fosse triste, ele seria triste e pronto. Pronto pra morrer, salvar sua vida ou viajar de barca na proa com o vento refrescando o seu pelo em liberdade. Nada, quase nada, rasgaria o seu ser. Porque o cão não se iludia. O arrepio de seus pelos é o despertar de cada instante. Como o da chuva derramada ao lado dele. Desse cão, te digo: ele era inaudível. Mas havia um globo de luz que lhe assistia e o desvelava na rua. Aquele cão era cão. Mas poderia ser um coração brega abandonado.