Algo acontece com a Universidade, ou melhor, vem acontecendo faz tempo. Há duas coisas que podem acontecer à Universidade. Como uma flor, ela pode ser deixada de lado e florescer. O contrário seria ser deixada de lado, como uma pera na fruteira, e, como é sabido, amadurecer e, destino, apodrecer. Temo que o que ocorre hoje com a Universidade - sobretudo nas graduações - é o segundo caso. E, alarme de incêndio: o apodrecimento é lento, gradual e não tem retorno, embora com a esperança que as ações humanas - vá lá, algumas delas - sempre possuem uma segunda chance.
Os professores estão cada vez mais esclerosados. Poucos de fato se salvam e são objetos de nossas boas lembranças. A maioria é burocrática. Não se preocupam se os alunos aprenderam ou não algo. Apenas querem vomitar o seu conteúdo (muitas vezes inútil), dar a sua aula e ir para casa, crente de que fizeram a sua parte. Os professores não ousam. Não trazem textos e autores fundamentais para as humanidades (uma colega de classe, com quase 19 anos, me confidenciou que jamais havia ouvido falar em Nietzsche!), seja por preguiça, seja por desconhecerem o que realmente importa. As aulas acabam sendo um sacrifício, pois sempre fica a sensação de que poderia se fazer coisa melhor em casa - por parte do aluno - no silêncio do quarto e do auto-didatismo. O que temos, portanto, é algo grave. Grave porque a Universidade sempre foi, ao mesmo tempo que o lugar do rigor do pensamento, o lugar ao qual desejamos ir para nos transformar. Para encontrar algo a mais que a repetição do dia a dia e a extrema superficialidade que cada vez mais assola a sociedade. O desejo está acabando para a Universidade. Desejo de algo grande, da vontade de ascender a um alto patamar de crítica, de pensamento, de humanidade. E nisto, os alunos também tomam parte. Quem são os nossos alunos hoje? Os que não estão apaixonados. Os que buscam suas notas e suas palestras que somente vão preencher os seus currículos e não os modificar. Os alunos que esperam da Universidade apenas a sua catapulta que os lançarão para o seu trabalho repetitivo, que, desesperados, vão necessitar para sobreviver. Onde estão os alunos verdadeiramente escritores, leitores, pensadores, questionadores das suas existências e de sua sociedade? Que, mesmo nos seus silêncios - que muitas vezes é o silêncio da pobreza material - nunca desistirão de algo sempre maior? E, do outro lado, o que fazem esses professores? Estão perdidos? São apenas mais uns espertos? Ou nunca foram o que dizem que são? Onde está o meu professor? Onde está o meu companheiro pensador?
O que estamos fazendo com tudo que criamos? Tudo que depende profundamente da gente para permanecer e que, cada vez mais, é apenas substância vulgar de uma prova que temos que preencher?
Uma estorinha: em frente à Faculdade Letras havia um grande Dom Quixote de lata. Um dia houve uma choppada. Alguém subiu no Dom Quixote e o derrubou. No dia seguinte, o Dom Quixote desapareceu. No canto, próximo à porta do elevador, ele jazia, sem a sua base.
Um verdadeiro, um lúcido e potencial humanista, jamais derrubaria um Dom Quixote. A deslealdade é um dos primeiros sinais da queda do indivíduo.