24 julho 2009

Noturnos

A noite já invadia e apressou os seus passos para não tornar sua respiração tão noturna. Na praia, ao longo de seu enlace com as ondas, as nuvens estavam lindas escuras e misturadas com o crepúsculo enfraquecido pelo intenso arrepio do mar. Pescavam homens e, após iscas e iscas lançadas, anoiteceu. Elas mergulhavam à beira mar presas a lanternas coloridas. As vermelhas saltavam e caíam sobre a superfície do mar secamente, feito um raio de luz rasgando a escuridão. As castanheiras ondificavam a luz do caminho. Os seus olhos, as suas pupilas varavam a superfície da água num zummm. Gatos perscrutavam o seu caminho de volta para casa. E quando chegou, a lua já se impunha a nado. Abriu a porta. Olhou o sofá caído em luz. Uma mulher estava lá. Não a reconheceu. Um pano negro cobria o seu rosto. No quarto, abriu uma caixa de veludo. Dentro havia uma lua eclipsada. Nuvens vagavam pelo corredor. Sorriu brevemente. E se abraçou, sentindo-se sonhar.


*****

Olhou para o céu. Estranhou as estrelas. Estranho descontentamento era aquele de assistir ao espetáculo daqueles astros mas não poder tocá-los. Que estranhamento! Não conseguia entender por que estavam tão longe e, principalmente, por que já estavam mortas de forma tão luminosa e intensa. Ao caminhar pelas ruas que rodeavam-no, assistiu às estrelas aparecerem e desaparecerem num piscar de olhos. Eis que as nuvens acabaram tomando a noite, fazendo o estranho estrelar arrefecer. Podia agora sustentar os próprios passos sem mais se sentir indeterminado, posto que acima dele, há alguns minutos, houvera algo de inalcançável à existência. Sentia agora o ritmo do coração bater sem turbulência. Naquele instante, o limiar da porta de madeira compensava o limite intransponível das estrelas. Como era simples e agradável a lua imprecisa entre nuvens e as estrelas desaparecidas. Mas a respiração, anuviada, ofegava.