- Me sinto estranho, me dizia numa noite apenas noite. - Não consigo tomar consciência da vida sem sustos. Hoje, ao ficar cercado duas horas por um engarrafamento, não conseguiu se viver sem medo, pânico, susto. Não se via numa comédia humana, como deveria ter se visto, de preferência com músculos brandos. Seus músculos, não, nem estavam brandos. Em pé, ônibus sustentando-o, seus músculos estavam tesos. Sua alma sofria, pois enxergava aquilo, com olhos de menino do campo, como uma loucura humana. Aquelas dezenas de carros, ônibus e caminhões com suas buzinas periclitantes eram uma violência a qualquer tempo humano; dizia, a um verdadeiro e digno tempo humano. Ora, monologava, - vim pra cá, já sustento a minha existência e ainda tenho que aguentar seco essa decadência sórdida da humanidade. Minha alma não é branda. Ela seria vulgar se fosse branda num engarrafamento suspenso sobre um viaduto, donde a vista era um lado buzinas e faróis gritando e do outro um cemitério só desejando o grande silêncio.
Tão patética e perpétua vista não desejava para os seus amigos passageiros. Mas que amigos? Que passageiros? Eles apenas dormiam, seus corpos foram cansados e vituperados pelo longo dia. Seus olhos de quando em quando se abriam como os faróis vermelhos dos freios dos carros. Stop! seus olhos abriam. Seguiam. Stop! seus olhos abriam. E seguiam. Seus cabelos chamuscados pelos ventos do mar sobressaltavam sobre os arreios do ônibus. E na grande ponte que atravessavam, a seguir pra casa, sonhavam, só sonhavam, meu deus, não é possível, aquela realidade só podia muito lhes convir para ainda sonharem já tão no fim daquela prostituta jornada humana.
Tão patética e perpétua vista não desejava para os seus amigos passageiros. Mas que amigos? Que passageiros? Eles apenas dormiam, seus corpos foram cansados e vituperados pelo longo dia. Seus olhos de quando em quando se abriam como os faróis vermelhos dos freios dos carros. Stop! seus olhos abriam. Seguiam. Stop! seus olhos abriam. E seguiam. Seus cabelos chamuscados pelos ventos do mar sobressaltavam sobre os arreios do ônibus. E na grande ponte que atravessavam, a seguir pra casa, sonhavam, só sonhavam, meu deus, não é possível, aquela realidade só podia muito lhes convir para ainda sonharem já tão no fim daquela prostituta jornada humana.