13 março 2010

O homem mais et cetera do mundo


Certa noite, um homem preto, pobre, desempregado e de um bairro distante, mas bem vestido, resolveu alguma coisa. Pegou uma barca velha e se jogou no mar. A barca não o levava pra sua casa. A barca levava pro sentido inverso da sua casa. Era o que ele queria. Um sentido inverso pra sua vida. Alguém até disse, depois que aconteceu o que vai acontecer: "É um homem torto, nem sabe tomar o rumo de casa direito!".
"Homem ao mar!", disseram, repetiram oficialmente. Alguns passageiros se jogaram pra tentar ajudar. Outros da tripulação também se viram na obrigação de se jogarem no mar pra salvar o homem. Vestiram umas boias redondas feito uns palhaços e se jogaram sobre o picadeiro gelado do mar. O homem não deixava se salvar, mergulhava pra se esconder e, quando os outros, os salvadores, achegavam pra salvá-lo, o desertor tentava afogar os salva-vidas sem piedade. Então, alguém conseguiu dar uma gravata em forma de pirueta no maluco, puxaram-no pra margem e o salvaram. Chegou a polícia e a imprensa com uns jornalistas portando umas gargantas imensas. Todos se perguntaram o que fariam com aquele homem preto, pobre, desempregado e ainda por cima morando longe, embora bem vestido. Alguém de trás, na multidão, deu a ideia de mandá-lo pra casa. Foi assim: "Mande esse traste pra casa!", disse o fundão da multidão. E olha que o homem sem nome nem tinha roubado ninguém e, até quando ele pulara da janela, disseram os passageiros, fez questão de pular com uns óculos escuros bem bacanas e com uma mochila que parecia um paraquedas.
Quando deu meia-noite, ele voltou pra casa. Foi de ônibus mesmo, porque era sexta-feira, os policiais precisavam tomar uma cerveja e os jornalistas deveriam voltar à redação pra aumentar a história. Deram uma passagem pra ele. Voltou encharcado pra casa. A casa mesma. Quando chegou, encontrou a mulher morta de vergonha. Mas, quando ela viu os olhos de seu marido marejados, como que perdidos feito uma planta aquática em meio a um mar revolto, entendeu que a alma dele já não estava mais ali. Algo daquele homem tinha ficado no salto, pra logo mergulhar em meio a espumas que semimisturavam à hélice da barca, que, velha como convinha, transpirava.