20 abril 2010

A derrota da página em branco


"Parto de uma atitude permanente no sentido de que a manifestação ou a presença do pensamento poético é uma parte de minha vida. Esse pensamento poético, para dizê-lo de alguma maneira, permanece imobilizado, mas está comigo todo o tempo. E, em algum momento, uma parte de meu cérebro que os cientistas estão localizando em nós, põe em marcha esse pensamento poético de que falo, o qual, no meu entender, difere de qualquer outra modalidade de pensamento. É uma linguagem interior que se ativa ritmicamente, em sua aparição há um desencadeante musical, e esse pensamento rítmico é identificável como pensamento poético. O que não se deve fazer, sem que isso seja um lei de aplicação geral, é criar um projeto, programar, criar algumas metas ou significações prévias com fins de escrita poética. Não é precisamente o automatismo puro dos surrealistas, mas sim uma atividade que não deve ser intervinda por outras formas de pensamento. Finalmente, de maneira quiçá não perceptível, para o poeta até o final aparece sim um sentido, um conhecimento que parte do não saber, o que dizia Juan de Yepes, ao saber, ao conhecimento, mas por mecanismos que não são a indagação, o estudo ou a indagação prévia."

[fonte: Antonio Gamoneda, no El País.com, em 17/04/2009; tradução livre]