11 maio 2010

A derrota da página em branco III


"Escrevemos para recordar ou para ir adivinhando o desconhecido? Certa vez Julio Cortázar recomendou: "Conte a história como se só fosse de interesse para o pequeno círculo de teus personagens, pensando em que poderias ser um deles." Eu não encontro uma melhor recomendação para os que quiserem se meter neste caos que é escrever quimeras. Inventar mundos é querer adivinhá-los. Quem são eles? Quem foram? O que pensavam? O que os comovia? Onde vivem? A quem desejam? A que se atrevem? É para isso que escrevo romances. Para sonhar com outros, para inventar pessoas que gostaria de conhecer, com as que me façam bem conviver durante horas, durante dias estendendo-se por anos. O que me acontece não preciso reinventar, e quando tento fazer algo assim sempre termino aceitando que a história que conto foi minha. Escrever é um jogo de precário equilíbrio entre a coragem e a soberba. Também entre seus opostos: o medo e a humildade. Sobre como escrever, sobre os truques e os equívocos, não sei falar muito bem. A única coisa que sei com a claridade da água é que escritor é quem escreve todos os dias, todos os momentos livres e sempre que observa algo, ainda que não tenha lápis, nem teclas com as quais deixar constância de suas palavras."


[fonte: Ángeles Mastretta, no El País.com, em 17/04/2009; tradução livre]