A vida é a luz do homem, e a luz acende na treva, e a treva a acolhe (via Tolstói; modificado).
Cai o céu
derretido como breu
anunciado pelo crepúsculo na faca
vêm as crianças, desenroladas
estrelando vesga noite
no beco, soturnas
sombreando o pelo afagado da gata
suas línguas em chamas
chispas sobre o telhado
grunhidos de porcos
mansardas marteladas a seco
vêm as crianças, vêm
vêm encarniçadas
estuporadas, felinas
o miar no acúmulo da noite
o mar no furúnculo da vida
(sobre o peitoril da janela
uma moça enxuga as lágrimas
nos domos dos cabelos)
as crianças zunem
uma galinha é morta com alegria
depenada na dor muda
um bêbado baba uma solidão
vaga-lume do tédio
um arpão passa
dantesco
geometriza as sombras
redemoinha a luz
os sapatos rasgam um punhal de terra
lambem os sulcos
medram e fenecem o tempo.
Um comentário:
Céu derretido. Gosto desse tipo de imagem..uma coisa meio Dali, né? rs
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