12 março 2014

A ronda


A vida é a luz do homem, e a luz acende na treva, e a treva a acolhe (via Tolstói; modificado).

Cai o céu
derretido como breu
anunciado pelo crepúsculo na faca

vêm as crianças, desenroladas
estrelando vesga noite
no beco, soturnas
sombreando o pelo afagado da gata
suas línguas em chamas

chispas sobre o telhado
grunhidos de porcos
mansardas marteladas a seco

vêm as crianças, vêm
vêm encarniçadas
estuporadas, felinas
o miar no acúmulo da noite
o mar no furúnculo da vida

(sobre o peitoril da janela
uma moça enxuga as lágrimas
nos domos dos cabelos)

as crianças zunem
uma galinha é morta com alegria
depenada na dor muda

um bêbado baba uma solidão
vaga-lume do tédio

um arpão passa
dantesco
geometriza as sombras
redemoinha a luz

os sapatos rasgam um punhal de terra
lambem os sulcos
medram e fenecem o tempo.

Um comentário:

Lenina disse...

Céu derretido. Gosto desse tipo de imagem..uma coisa meio Dali, né? rs